31/12/2007

feliz ano velho

2007 foi um ano marcante, que vai ficar na minha história para sempre. Um ano muito bom mas não que tenha sido fácil, porém um ano de muitas realizações. Nele aprendi que no sofrimento realmente se cresce, que para você trilhar novos caminhos tem mesmo que abandonar os antigos e não adianta querer ficar só com o que é bom deles, abrir mão significa que vão as coisas boas também. Em compensação tudo o que vem é novo igual e a vida fica mais interessante. Rompi com muitas coisas, boa parte que amava. No entanto era preciso, e assim foi. Construí outras, com sorte, com zelo, com esforço. Vi o dinheiro voar pela janela, entrar pela porta depois. Vi meus pais superarem dores e conquistarem alegrias, vi minha irmã chegando onde queria e o meu irmão indo pra onde queria. Vi meus filhos muito mais. Vi meu marido de novo. E ele viu a vida ser mais forte.Vi os amigos de verdade estarem comigo, vi novos e vi outros simplesmente partirem. Vi minha sobrinha virar uma mulher, e vi meu sobrinho virar um homenzinho, vi a pequena virar pros dois e se aconchegar neles. Vi e pedi pela família toda de forma diferente. Vi e falei coisas que queria sem medo ou culpa. Vi como é bom ver.
Ah, 2007 você termina hoje mas deixou em mim um pouco pra sempre. Eu te agradeço por me dar mais maturidade e coragem. Eu te agradeço por ter me dado 365 dias diferentes um do outro, 365 dias de histórias pra contar depois, em outros tantos anos que ainda quero viver.

30/12/2007

Tri-frases


Mamãe, que estrela é essa? e essas? cadê as três Marias? e aonde fica a Maria sozinha? (Julia Galloro)

Papai, mamãe, olha pra mim.. advinha que esporte eu tô jogando... não, não é volei, nem basquete, nem futebol, nem tênis... nem peteca, nem balé, nem bolinha de gude... não sabem? ave!! é hoquei, ora, hóquei! (Bia Galloro)

Ô mãe, sabe que eu vou crescer agora muito grande porque o meu pé não cabe mais nesse chinelo que o papai comprou? (Pedro Galloro)

Mã, eu não quero ficar velhinha e morrer que nem a bivó que não morre (Julia Galloro)

Mamãe é verdade que você vai morrer de dia? (Bia Galloro)

Que dia? (Pedro Galloro)

então...que seja melhor

Hoje desejei meu primeiro, pessoalmente, "feliz ano novo", com um abraço apertado e a cabeça descansando no peito do meu irmão, que passa a meia noite do dia 31 longe dessa vez. De mim e de nós. Abracei ele com um nó na garganta que não é triste, juro, mas é lamento. Lamento egoísta de tempos que não voltam mais. Eu sei disso. Ele foi hoje e volta logo, mas eu sinto que ele foi já há algum tempo pra um lugar que não tem volta pra tudo o que era antes. Paciência...

Flá, te amo aqui ou aí e quero sem demora que você possa mesmo ter um feliz novo ano da sua vida.

Se cuida Flá, se cuida.

a esposa de luís xv

Em meio a rosas e sedas ela se perdia. A cama era alta demais até para os saltos novos que vivia comprando. Eram tantas formosuras, nos doces, nas fitas, no cetim claro, nas mucamas e nos deleites. Qualquer coisa se podia ter, mas nos desejos secretos se queria apenas era poder correr livre sem precisar ser olhada por muitos ou até por todos. Ah, ela trocaria o leque de pedras, o ouro e talvez a champagne pela saia solta e leve, onde pudesse sentar sem ajuda e levantar sem demora. A natureza lhe fez bela e generosa, mas jovem demais pra tanta realista realeza. De tudo, o melhor talvez fosse o chá, óbviamente depois dos filhos louros. O chá servido na porcelana mais autêntica que existia, quase que feita à mão. O chá e a porcelana. Só que o pensamento soltava-se para as margaridas plantadas num jardim grande mas simples, e também nos arredores das ervas frescas que faziam com que ela pudesse sorrir o sorriso da franqueza e não somente o da dívida. Mas assim foi e assim mesmo ela se fez digna até na crítica e no momento do declínio. Afinal, eram apenas duas crianças a reinar a França. Mas ninguém entendia isso, tão pouco eles mesmos. Tão pouco ela apenas, e a sua Áustria.

21/12/2007

manuella

Pequena Manu, hoje eu vou viajar. Tô indo agora na hora do almoço e por conta disso algumas visitas ficaram pra depois da minha volta, entre elas a visita pra entregar o teu presente de natal e também o da Lolô. É que na correria da última semana, a mamãe e eu não conseguimos nos encontrar. Então, como você é dona de suas decisões e eu já percebi isso, talvez eu já te entregue esse presente depois, nas suas mãozinhas mesmo.
Seja como for, mocinha que me enganou, jurava que você era um menininho, quero te dizer que mesmo tendo estado mais de longe, menos presente do teu aconchego do que estive quando a Lola decidiu chegar, te amo igual, te amo do mesmo jeito. Amo porque amo teus pais, tua irmã e todo o espírito que te cerca. Amo porque a Lolô conta pra gente como é amar uma irmã mais nova, porque teu quarto te reflete, porque você não pára dentro da barriga da mamãe e porque você a ajudou muito, deixando-a mais linda e confiante ainda, em meses decisivos em muitos aspectos da sua vida. Amo porque o vovô Pedro já achou um diminutivo pro teu nome. Porque você vem pra somar nossa alegria.

Olha pequenica, talvez eu não esteja no dia do teu nascimento lá no hospital, talvez, porque se você resolver nascer na semana entre o Natal e o Ano Novo eu vou estar longe, e se assim for, venha linda, venha com todas as bençãos, seja muito bem-vinda, ah! e não esqueça de lembrar o papai de avisar a gente. Se resolver esperar mais um pouco, então aí eu vou estar por perto e te vejo logo depois do primeiro chorinho, aquele que não sai da nossa memória. E aí te cheiro, te abraço, te assopro e te aperto bastante, ao vivo e à cores.

É isso minha linda. Que Deus te ilumine e Nossa Senhora te cubra com seu manto azul.

amor, da tia Cice.

20/12/2007

chuva

Sempre gostei da chuva. Gosto da sensação que a chuva traz, meio de aconchego, de casa com cheiro de bolo assando. De parecer noite mesmo sendo dia cedo. Gosto demais do cheiro da chuva, que faz cheirar molhado também o chão, a terra. Gosto até da chuva no carro, batendo no vidro e o pára-brisa pra lá e pra cá. Gosto da garoa, das chuvas de verão, da música Águas de março, das tempetades de raio.. outro dia caiu um raio aqui perto de casa, escureceu tudo, fez um barulho estalado aterrorizador, eu gosto de ver o rosto de susto das pessoas depois de um raio. Eu gosto quando a chuva me conta que quem manda é a natureza. Eu adoro andar na chuva, nadar na chuva. Lembro que de menina levada na praia, era só chover e eu ia pro mar, e minha mãe ia atrás dizendo que tinha perigo. Teve um ano novo aqui em São Paulo que choveu demais, e eu pulei a chuva em vez de pular as ondas, e a água me reviveu.
Acho que é por essa minha paixão que a chuva tá sempre comigo. Sempre. Todos os meus aniversários chovem, o meu casamento não choveu, desabou o mundo.. e quem estava presente é testemunha, além da cauda do meu vestido que passou a pesar o dobro. No dia do nascimento dos meus filhos sinceramente não me lembro se chovia, mas com certeza alguma garoa mesmo que passageira caiu. Outros tantos momentos que passei e vivi, importantes, felizes, tinham chuva. Chuva das boas.
Ontem foi a festa da eii!. Uma festa que mudou várias vezes de dia porque tava comigo procurando o dia do ano que ia chover mais. E assim foi, choveu pra caramba. Choveu aquela chuva pesada, que você pega os pingos nas mãos e leva embora. Lavou nossa alma, encheu as plantas de sorrisos, fez a gente ultrapassar uma "dificuldade" para celebrar e se divertir.

Sempre ouvi dizer que a chuva é a benção dos céus que de tanta alegria chora pra você. Que chuva é sinal de fartura, de bonança de bom presságio. De sucesso. Sempre acreditei assim e nunca me arrependi por isso.

Chuva, sabia que você apareceria ontem... sabia.

17/12/2007

propulsão

Doce é a emoção simples, que fala aos olhos e que se escuta quando a pele arrepia. Aquela que te aperta o peito, que te enche de expectativas e desejos bons. Que também te dá temor quando, por um ruído apenas, se pensa algo que não combina com isso tudo. A emoção pequena de ver as cores, as luzes, cada canto do mundo e sua vontade de expressar-se. A emoção grande de querer e ser querido, de ter com quem abrir um sorriso largo, e de poder pedir, mesmo que seja desculpas. É um belo momento de renovação, pelo sim ou pelo não, pela crença ou pela teimosia de contrariar o rumo de tudo, é indiscutível que passe por todos, principalmente aos que menos percebem, a sensação de esperança. Fim de ano é assim, a gente ajeita as malas de tudo o que se viveu para viajar pra daqui há pouco. Porque afinal são horas somente, mas tá aí a maior prova de que o tempo é apenas um medidor de passagem. Invariavelmente a retrospectiva da sua alma se une a retrospectiva do que a mente vivenciou, e lá no fundo, bem no fundo dos nossos céus, a gente também se lembra do que sequer, sabe-se que já viveu.
Gosto desse momento, desses dias, desse final que não acaba, desse poder propulsor e expontâneo de refletir. De desejar o bem a quem igualmente se quer, sabe-se se já nasceu.

Gosto disso.
O final de um novo começo e o começo de mais um final.

16/12/2007

na virada e dali pra frente

Genio de 2008 eis os meus três pedidos, eu quero:

1- Saúde e proteção para todos que passarem pelos meus pensamentos.
2- Uma casa nova bela e grande pra minha família que inove nossos vínculos.
3- O sucesso da eii! e de tudo que girar em torno dela.

Amém.

14/12/2007

festas de final de ano

Com a chegada do final do ano as festas ganham seu lugar. Tem festa na escola, com os amigos, festa da "firma", como brincamos ao celebrar com os amigos do trabalho, festa de Natal, do Reveillon, alguns aniversários de teimosas personalidades que nasceram disputando datas, como o meu pai que nasceu dia 30/12, enfim, é festa que não acaba mais.

O bom é que todas elas são especiais e nos enchem de alegria e de beleza. A gente se arruma, se prepara, se encanta. E isso é uma delícia.

Essa semana tô cheia de boas festas.

Dia 12 as crianças se apresentaram na festa da escola. Bia e Julia de bailarinas com direito a colant rosa, sapatilha de laço e coqui no cabelo. Um luxo. Levei elas no salão porque prender aqueles cabelinhos não é fácil, e elas se sentiram o máximo. Maquiaram-se e foram arrasar no palco. Arrasar mesmo! Dançaram, declamaram poeminhas, cantaram e participaram como nunca dessa festa. Na platéia só dava César, minha mãe e eu aos prantos de ver como nossas pequenas estavam formosas.

Pedro também fechou no espetáculo! Lindo de mister fantástico, entrou fazendo cara de bravo e impinando o peito e os braços para mostrar sua força de super herói. Falou alto a sua fala, segurava o pescoço do amigo esquecendo que não estavam na páteo da escola, como todo bom moleque arteiro. Dançou a seu modo a coreografia, mas foi cumpridor a risca dos passos. De topete moicano e pintado de azul da cor do traje de seu herói, ele foi o nosso nesse dia.

Preciso dizer o que? Mais choro, claro...

Ontem dia 13, tivemos duas festas belíssimas. O aniversário mais esperado do ano, o do Luis Guilherme, amigão dos meus filhos, daqueles que a gente espera que extrapole o tempo. O companheiro do Pedro na escola, o primeiro amigo da vida. Luis é uma graça, com os cabelos encaracoladinhos é um arteiro de primeira. Sua festa foi especial, com direito a entrevistas e homenagens. Emocionante. A gente adora a Cibele e o Zé, seus pais, e parece que somos parceiros ha um tempão. Que boa festa essa!

Depois, a festa da minha pequena Priscila Bernardi e do amigo Nelson Kaufman. Assim mesmo, nessa ordem. Uma festa organizada com carinho, ansiosidade, de uma idéia de reunir amigos, de prestigiar o companheiro, a Pri tratou com classe um evento especial. Aconchegante, elegante, chiquérrimo. Muita beleza e sofisticação com calor humano. Estávamos todos à vontade e felizes. Eu amei e sei que todo mundo que esteve presente também.

Amanhã dia 15 tenho outra boa festa. Um casamento oficilizando-se depois de 10 anos. De uma nova amiga, mas muito querida. Sei que também vou me divertir muito porque vou estar entre pessoas do bem.

Dia 19 tem o eii! day, o dia da gente celebrar a nossa agência. Num lugar lindo como se estivessemos em Bali, estaremos cercados de energia para 2008. Nós e os amigos de coração, os companheiros de luta. O pessoal da eii!

Entre sorrisos.

Festa boa é assim. Tem gente em paz e tem sorrisos sinceros.
E que venha o Natal e o Reveillon.

Boas festas para todos!

10/12/2007

piscar de olhos

Pisca estrela bonita.
Pisca porque te vejo quando assim fica.
Às vezes some e eu não entendo,
se és cadente ou se vai no tempo.

Pra não errar faço logo meu pedido
e quando voltas eu não ligo.
Porque já fiz!

Afinal, tu não me deixas em nenhum momento.
Sempre olho, mexo e volto, e tu estás lá.
Piscando, piscando.
Alegre, indo e voltando.

Como eu, que ora requebro ora silencio.

Pisca estrela.
Tu acordas assim prontinha?

07/12/2007

silêncio

Eles ficaram daquele jeito por uns cinco minutos, abraçados e pensando em tudo sem dizer nada. Fora grave o acidente dele, mas nehuma consequência foi a maior prova de que tudo está tranquilo. A cena da vida veio rápida mas límpida pra ela, o dia de uma chuva torrencial que selou a união e ele sereno esperando a chuva passar, a primeira decisão e ele em apoio, depois quinze em quinze dias em dois anos e ele chegando, as mudanças de casa e ele ao lado, as brigas e ele ora culpado ora não, o momento sublime do parto, três choros e ele presente e sorrindo com os olhos, a segunda decisão e ele feliz, o verdadeiro reencontro, os novos desafios e eles juntos. O km 162, o caminhão, o choque e ele só. Mas por fim a vida fatiada em milagre.
Tanta energia junta fez zerar o taxímetro. Ainda se está pálido, mas quem não estaria?
Então, o abraço se desfez e nos olhos fez-se tamanha cumplicidade que se podia ver. Assim mesmo, sem nenhuma palavra.

05/12/2007

cocô de passarinho

Pior que encontrar alguém sem querer, é encontrar sem querer alguém. Chatice na certa. Obrigação, sorriso amarelo, nenhum papo, ou melhor dizendo, os mesmos papos. Afe!

Mas apesar disso, o almoço foi ótimo.
Que bom poder fazer escolhas.

04/12/2007

cada um

Ela continuava melancólica. Muito diferente de triste, a sensação era apenas de um certo aperto. No fundo, depois de tantos anos ela sabia que não tinha jeito, que o que se queria, teria de ser mais devagar, teria que ser no ritmo do tempo que não é de ninguém, tão pouco era seu.

Havia planos pra quando a espera acabasse, ótimos e aguardados, porém ainda só planos. E era bom que fosse assim para que não deixassem de ser planos para serem apenas saudades. Então passou mais um dia, e mais uma noite. Um telefonema diminuiu uma pergunta, mas não a espera que ao que se prometia estava perto de acabar.

E a melancolia culpada, porque afinal de contas não havia mais nenhuma razão para ela, deu espaço ao sono, às horas que você não percebe, mas sonha junto com o barulhos dos ponteiros.

E assim deu-se mais uma madrugada, e amanhã ela aguarda o sol.

alvorada

De manhã lá em casa existe um jeito. As crianças vão acordando aos poucos, lá pelas 8h40. Escuto a cama mexendo e depois de uns trinta segundos lá vem ele, primeiro o Pedro. De pijama torto, segurando o pipi com uma mão e o paninho com a outra, olhos meio fechados e cabelo despenteado. Arrasta os pezinhos e a primeira coisa que ele faz é me dar um beijo.

Aí passa uns minutinhos, mesmo, pouquinho tempo e aparece a Bia, que vem batendo nos batentes porque não abre os olhos além do suficiente para ver onde é o caminho. Aqueles cabelinhos lisos e pesados caem pelo rosto e você só sabe que ali tem uma menininha porque tem pernas e pijama rosa. Ela vem em segundo, nessa hora, e a primeira coisa que faz é me dar um beijo.

Não dá nem um tico-tico depois e surge outro bichinho descabelado. Porque de cabelo mais fininho e liso, a noite aproveita para embaraçar. Julia vem reta, querendo dizer que já está acordada há algum tempo, mas o passar de paninho no nariz não nega que ela ainda tá aconchegada pelas cobertinhas que ficaram uma confusão na cama. Ela vem em terceiro porque prefere a caminha pela manhã e a primeira coisa que faz é me dar um beijo.

Eu posso estar onde for, geralmente tô no computador, mas não importa. Eles me acham.

Aí eu abraço eles apertado, passo a mão neles todinhos, quientinhos e de bochechas rosadas, dou bom dia, digo que morri de saudade de madrugada fazendo voz de histórinha. Falo a frase: mas que cheirinho de filho que eu amo. Eles gostam assim, riem gostoso e o dia começa.

28/11/2007

catapora

Hoje em dia, nesse mundo moderno cheio de vacinas que te imunizam até de dor de cotovelo, quem pegaria uma simples catapora? Pois é, mas aqui em casa a Bia pegou.

Fraquinha, umas bolhinhas aqui, outras lá, indefesas praticamente perto das que eu, por exemplo, me marquei de tanto coçar quando pequena. Acho que todos nós tivemos a tal da catapora e tantas outras. Lembro da Lu com rubéola, do Flávio com caxumba, de rotineiras doenças de criança perambulando lá em casa, de tempos em tempos.

Mas mesmo com toda essa leveza cataporense dos anos de 2007, a Bia está o máximo, dizendo que não pode ir na escola porque tem uma catapora que o Dr. Mário achou nela. Aí o Pedro olha e diz, mas tem outra aqui, não é só uma!, e a Julia corrige dizendo, mas é que só essa que coça, né Bia?

Além dessas interpretações, O Pedro e a Julia querem estar encataporados também, mas não pegaram. O Pedro porque gostou da idéia de ficar em casa e não ter que ir na escola, e a Julia porque já que todo mundo vai ter, talvez fosse importante ela ter também pra sentir o que os irmãos estão sentindo...

Só sei que tá um barato a tal da catapora, assunto pras avós, pra eles, pros amigos e pro c de jaboticaba, que registra mais isso da vida. Da boa vida.

E viva a coceira.

27/11/2007

te agradecerei por todos os meus dias. até a eternidade

ESTADO DE GRAÇA**
(De Clarice para Cice)

"Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irrairradia de pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que ela só chamava de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se."


** Uma das provas de amor mais lindas que recebi. Da Ana, a Ana Paula, minha cartilha pra vida e minha amiga. Que bom meu Deus... e minha amiga!

dela: singelices.blogspot.com

25/11/2007

antagonismo

Ando de tão feliz o próprio tema da tristeza.

Choro ao ouvir pedaços de canções, frases de poemas, filmes e tangos, ditados da vida. E eu que um dia tão jovem, jurei que não choraria...

Me emocionam as capacidades, quaisquer que sejam, mais as simples, como dobrar uma folha de papel num barquinho que correu pela guia da rua no domingo, como lá atrás. De ver o feito sair de uma geração que só teve isso pra brincar e hoje ensina tal volta em meio a tanta, e fácil, beleza nova.

Me emociona a capacidade de cuidar do corpo, de saber rezar.
Choro porque fui lembrada, porque revi pessoas, porque mergulhei em textos que me fizeram reviver, tudo.

Choro de tanta alegria que me dá um certo medo de exagerar. Mas acontece que minhas pupilas dilataram como a dos gatos, e eu tenho podido enxergar melhor durante a noite, onde não é tão claro. É lá que vejo quanta beleza tá escondidinha pelos vãos preciosos dos detalhes.

Onde a maioria vê escuro eu vejo claro.

Tenho com isso, me aproximado do medo como se fosse o último suspiro, como quem ouve o passado numa canção que diz é tarde e eu já vou indo preciso ir embora, até amanhã, mamãe quando eu saí disse, meu filho não demore. Em Braçanã...*

Choro hoje por essa saudade. De tempos que não quero que voltem, mas quero muito que permaneçam. Resgato partes e dedico aos meus.

Hoje chorei de novo ao ouvir: Vou te dizer uma coisa, olha pra mim, a vida é boa.. reza mamãe, não chora, reza.
Rezo minha filha, todos os dias.

Rezo para agradecer em meio às boas lágrimas.

*Menino de Braçanã - Luiz Vieira

24/11/2007

porque?

Pergunta muitas vezes ingrata, a acontecer nas horas erradas ou pelo menos pensadas assim. Que faz escorrer lágrimas, doer o peito, levar a imaginação ao limite do fim de tudo, dos sentimentos injustos. Viaja nos acontecimentos, que seriam mesmo que tudo não fosse. Em desmaios sofridos e dolorosos, porém acompanhados, em batidas malvadas e despreparadas mas também salvadoras, e é aí o inverso. Curioso que a resposta vem da própria raiz da palavra. A verdade é que muitos dos temidos momentos são o fio para a grande oportunidade da virada da alma.

Chora, não tem problema, mas chora de felicidade, porque certamente a resposta é outra.
Confia em mim.

16/11/2007

parece que foi ontem

Reencontrar amigos é uma gostosura. De uns tempos pra cá, não sei o que deu, mas tô revendo um monte de gente boa, relembrando bons tempos e as fases que passamos.

Primeiro foi o Baca e a esposa que também era da turma do Ascendino Reis, e dele já falei novamente com o Mortão, que tá com uma filha de 15 anos. Passei quando ele me disse a idade dela... 15 anos meu Deus!! O Baca também tem dois filhinhos, um casal.

Aí revi o Lélo, vixe quanto aprontamos juntos, o Lelo era meu grande amigo de dançar nos sambas, aqueles bravos, sambão mesmo. Foi namorado da Andrea, minha melhor amiga, por 8 anos e juntos passamos ótimas histórias. O Lelo casou, separou e tem uma filhinha.

Depois foi a vez da Lili. A Lili era minha companheira de andar de karman-guia vermelho conversível, meu carro da época. Vestidas de mamãe noel, lá íamos nós trabalhar pra Nestlé no antigo Mappin Itaim. A Lili tá ótima, tem uma clínica de estética chiquérrima. Também casou, também separou e tem a Isabella, que já está com 11 anos.

Colado na Lili veio a Gauchinha, outra grande amiga da Nestlé, que viu e viveu comigo cenas de filme. De antigos namorados até o César a Gá passeou comigo pelos anos.

Também falei mais com a Andrea esses dias, por conta do meu aniversário, ela não esquece, e ainda me ligaram a Carmen, a Lerão e a Wil. Tá todo mundo com filhos e casadas, e de bem com a vida.

Fico feliz com isso, em rever as pessoas que viveram comigo épocas importantes, saudosas. E fico mais feliz ainda de saber que hoje tá todo mundo bem e que estamos diferentes, mas continuamos os mesmos. Sei disso por causa das gargalhadas que invariavelmente surgem quando batemos os olhos uns nos outros. Bons tempos...

13/11/2007

onomatopéico

Corre.........................................
Vruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum
Zaaaaaaassssssssssssssssssssssssss
Huuaammmmmmmmmmnnnnnnn
Tantantantantantantantantantannn
Pssssssssssssssssssssssssssssssssss
Zooooooooooooooooooooooooommm
Tutututututututututututututututuu

Ri...............................................
quauauauauauquauauauauauquauau
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ahahahahahahahahahahahahahahaha
uhuhuhuhuhuhuhuhuhuhuhuhuhuhuh
uahahahahaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
ririririririririririririririririririririririririi
hummmmmmmmmmmmmmmmmm


Pára...........................................
Ihhhhhh
Plá
Xsssssss
Tum
Chiiiiiiiiu
Vaãm
Bum

Tchau!..........................................

08/11/2007

o grafite e o diamante..a mesma jóia!

Hoje eu ganhei um presente.

Bem, um presente é modéstia minha, um presentão. Não, também é pouco ainda, um presentaço. Uma caixa preta, discreta, enorme e absolutamente responsável pelo que trazia, envolta em laço e veludo. Abri de pé numa cena de dar inveja a qualquer pessoa do lugar.

Passei! ao ver a jóia. Linda, elegante, um conjunto que não tive coragem de imaginar o valor.

Fiquei olhando e naquela hora eu ganhei outra coisa junto. Meu novo amigo me deu a jóia, e minha doce preta me entregou na caixa o cuidado de pensar aonde estava o anel que eu havia gostado, e de ir atrás dele, parar meio mundo pra isso porque era importante, e de fazer questão de entregar hoje porque amanhã a gente não se vê e o aniversário é sábado, e de esperar eu abrir pra olhar nos meus olhos se eu gostei, e de se preocupar se eu não queria fazer festa porque ela preparava, e de prestar atenção em mim, e de dizer que isso não era nada porque eu significava e merecia o triplo daquele símbolo do que é caro, no sentido de cuidado, na vida.

Eu vim embora chorando no carro sozinha. Absorvendo tudo que sempre recebi.

Feliz pelo fato de estar satisfeita e por isso chamar pra perto a alegria nas suas muitas formas. Por saber hoje o que está por trás das conquistas materiais, e quanta ajuda se dá por aí pra poder merecer o que se tem. Que o mundo não é só de quem não serve, que nele tem gente boa, que divide e aproveita, que eu tenho exemplos e estímulos de que posso e vou fazer mais. Que minha vida sempre vai pra frente e que sou abençoada em todos os sentidos.

Quero dizer aqui o quanto é bom saber que eu tenho vocês, e vocês têm a mim.

Deixo o meu agradecimento em forma de beijo ao meu novo amigo que corre à beça pra poder oferecer mais a muitos. E sobretudo, um beijo pra minha eterna menina, que me encanta e emociona dividindo comigo as suas conquistas na vida.

Obrigada.

06/11/2007

saúde!!!

E eu que adorava vinho, agora gosto ainda mais. Nem tanto pela safra, cor, aroma, que continuam à margem do meu próprio paladar apenas, mas sim por causa das histórias que envolvem essa bebida.

As histórias que se eu não vivi, viverei um dia, eu sei. As histórias do passado, de reis e de tempos intuitivos, das superstições elegantes, vitorianas, dos vestidos engomados e claros que desfilavam por belíssimas casas que eram assim mesmo sendo de barro.

Aprendi nesses dias que tudo deve ser simples mas rigorosamente soberano. O melhor.

Hoje sei que uma boa terra para produção de uvas tem que ter três coisas: árvores de espécies do mundo todo, boa água corrente, melhor que se tenha nascente em torno, e rosas de todas as cores.

Parte disso, que vem da sabedoria que voa, se entrelaça com o que é mesmo estudado. Em meio a tantas rosas, duas são as escolhidas para o ofício, as vermelhas que apontam as uvas rubras, e as brancas demonstrando a parreira das uvas da mesma cor. E assim se formam filas de rosas e de uvas.

Mais ainda, o aroma te carrega, o cheiro da terra arenosa com muitas pedras e das frutas de todas as árvores. O carvalho europeu envelhece melhor a boa safra porque seus póros são estreitos, diferente dos novos, bons também, americanos. Um barril se presta a cinco vezes, depois disso volta ao seu destino.

Quanto a intuição, a boa uva não é a uva boa aos olhos, mas ao saber. Tem que ser pequena e suficiente.

Proteção também faz-se presente, a cordilheira de um lado, o oceano do outro e o deserto à volta, isola o bom vinho de presas comuns, e também uma boa história aproveitando-se do diabo, afasta os que roubam a jóia.

Por fim, não mais que dois quilos de uva por planta e uma pitada de atenção ao que te torna sensitivo, a escuridão.

Então, agora na hora de beber vinho, abrirei a garrafa por uma hora antes e viajarei por todos esses lados, e cantos, e vidas, e sabedorias, e respeitos. E de braço dado com a elegância, brindarei os motivos.

Saúde!!

31/10/2007

clarividência

Aquele tempo de andarem descompassados passara. De um modo simples que se explicava sem palavras o encontro se refez. Valia apenas o sorriso por perto das mesmas faces que há pouco eram escuras. Com a ajuda do vento, que soprava a favor já fazia um tempo, o barco teimoso entregou-se e rumou pro caminho certo, e só assim foi que seguiu. E nessa hora o beijo na mão tornou a ser dado, o abraço retornou aconchegante, o que era tudo igual virou diferente num igual de antes. Que desafiadora a vida que a cercara num teste cego, e que melhor desafio voltar a ver. Clara a fase da resistência, agradeceram a briga por conseguirem manter-se. E agora que ótimo, quão maior o que voltou. Éra preciso mesmo acabar pra começar. Tudo foi e nem deixou saudade. Ficou apenas o mesmo, o certo, o óbvio. As boas escolhas. O único amor.

transformação

Vai borboleta, segue o teu caminho, pula pra outra flor. Tu és bela mas aflita, curiosa, precisa seguir eu sei. Vai que eu entendo. Vai então. Vai borboleta, teu destino é voar.

30/10/2007

o troco

Corre um boato pelos quarteirões que Veridiana vai se casar. Será? Justo ela tão magrela arrumou alguém? E eu aqui, tão bela, continuo na espera... Não seria possível essa diferença.. Veridiana não liga, nem nunca foi nas cantigas, não sai atrás de ninguém. Eu sim me preparo, até enxoval no armário já fiz com bordado e tudo. E agora esse boato vem me tirar o sossego, me trazer um tamanho medo e despertar um segredo. Segredo de que o medo não é de ficar solteira, mas de Veridiana ser a primeira, será uma tragédia. Eu quero casar é certo, mas ela primeiro não pode. Eu serei a comédia.De qualquer jeito ainda é boato, e eu torço pra que se desmanche, essas vozes, esse transe. No fundo, no fundo, nem quero casar direito, prefiro uma bala no peito ao ver Veridiana no jeito. E ela? será que o quer, ou apenas disputa comigo? Tenho certeza que sim, o boato veio de amigos e eles me dizem assim. Então já sei! dou o troco com a mesma história.. solto um boato também, invento o nome do noivo, faço tamanho desdém. Assim ela muda o desejo, perturba as tolas vizinhas e seguimos as duas sozinhas na espera do mesmo alguém.

28/10/2007

feliz da vida!

Hoje é dia 28 de outubro, Dia de São Judas Tadeu, o santo da igreja atrás da casa da minha mãe que eu conheci e vivi na minha infância. Devo confessar que nem sou tão devota de São Judas, sou mais assim com Santo Antonio, Frei Antonio e minha sempre Nossa Senhora, mas São Judas é tipo parente, o santo de casa, da comunidade que a gente sempre frequentou... e nesse dia que é dele, quero aproveitar pra agradecer esse maravilhoso final de semana. Aconteceram coisas lindas, mágicas, segredos de família de comover a alma. Um sábado especial de brilho nos olhos da minha mãe que ganhou um presente merecido, dela mesma, e a gente testemunhou a luta e a conquista, e se não bastasse, um domingo daqueles apertados, gostosos, de festa de amigos, filhos no colo, beijos apaixonados de marido carinhoso e decisões importantes. E é assim que a gente fica grande, se sente forte, enorme, divina. Que entende que não precisa de mais nada, que tá tudo bem, que a família é tudo que a gente tem que agradecer e que os amigos são queridos. Ah São Judas eu tô tão feliz, entrei num fase tão legal, tô tão madura, mãe e esposa. Filha como sempre. Queria dividir isso com você e com todo mundo que eu amo. Obrigada então e parabéns.

22/10/2007

desterro

Intolerante o tempo perdeu a carne, ficaram apenas os verbos e as demais escritas. É lembrado o minuto, a aurora descendo para um longo e rigoroso inverno que ainda dura. Fora tão rápido. Em meio aquela multidão aflita pela água cristalina voaram as rimas. Ironia ou destino um lugar cercado de água sem tê-la para beber? Era preciso a corredeira pelas pontes porque abastecer a casa significava viver mais. Só que tudo valia uma troca, e água por um belo par de olhos claros valia a pena. Ela foi e ele nem soube. Ficaram pelo espaço vazio trocando selos, um pelo outro e outros por quem? não souberam mais e não sabiam de nada. Passaram-se anos, muitos invernos, fartura existiu, mas o que se perdeu, não voltou. Deixaram as memórias descobertas por novos, por quem jamais imaginou que um dia barganhou-se o óbvio, e ainda por quem nem sequer soube do lugar. Nunca ocuparam esses espaços, mas a descoberta deles fez com que tudo existisse até agora, que tivesse o motivo. Que valesse o tempo que não conhece as horas. Até hoje e até um dia.

21/10/2007

leve

Voa pluma e leva o desejo de conhecer o outro lado do rio. Sem rumo, sem regras . Só não caia antes do tempo, seja forte, chame o vento. Depois disso desça e descanse. Pare livre e espere. Virá certamente outro desejo a lhe soprar pra mais longe. Então solte-se de novo, vai voar muito ainda. Voa até onde quiser.

18/10/2007

gloss

Essa semana, pra quem quiser ver, na CARAS (é.. aquela revista de famosos) tá lá a Pri. No meio, foto grande, do lado das amigas Cicarelli e Beth Lago. Nome estampado na página, e ela sorridente no meio. Priscila Bernardi.

A Pri, meu bicho, é hoje minha sócia. Tá linda como sempre e tem realizado alguns desejos na vida.

Ela sempre quis ser reconhecida, famosa, vista nas revistas, nas páginas dos jornais.. como é obstinada, demora um pouco mas ela vai, essa semana foram três aparições distintas na midia.

Eu adorei ver ela lá, rimos juntas vendo que se tornou amiga da Beth Lago depois de um click. Tive que falar mil vezes que ela tá o máximo na foto, porque ficou com medo de não estar. O melhor da Pri é isso, ela vibra, se emociona, sente que conquistou as coisas, chega a ser ingênuo esse desejo.

Verdade, ela gosta de glamour, e fica feliz assim. E ela realmente está bonita na foto, mas o que eu quero que ela saiba é que a beleza dela extrapola as fotos, é uma beleza que só quem convive dia-a-dia sabe e entende, e se ela quiser, pode deixar a "fama" de lado que sua vida vai continuar sendo genial.

De qualquer forma, como o mais importante na vida é brilhar, então que todos brilhem, aos seus jeitos e aos seus modos.

Brilha Pri. Brilha, estrelinha do céu da eii!

15/10/2007

paulo

Depois de ficarmos um pouco mais sós por aqui, nessa dimensão, deixo minha homenagem pelos poemas que ele recitava como ninguém recitaria e recitará. Um homem que no auge de sua maturidade reconhecia que ser criança é melhor, e portanto, nos dá uma grande saudade.

À Paulo Autran, se me permitem, um menino deus.

Meus Oito Anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Autor: Casimiro de Abreu

04/10/2007

tri frases

"mamãe eu quero comer piolho de pão" (Pedro Galloro)

"olha mamãe quantas histórias eu sei contar: uma duas três quatro cinco seis sete oito nove e dez. Tá vendo? cinco histórias." (Bia Galloro)

"eu quero brincar de Ariel e por isso eu preciso virar sereia" (Julia Galloro)

"mamãe, a vovó é tua mãe? Que loucura!" (Bia Galloro)

"eu queria mudar para a casa nova ontem para brincar com os brinquedos novos mais rápido." (Pedro Galloro)

"Bia, vou esperar o papai chegar assim deitada e de olhos fechados porque ele vem beijar a princesa, se eu dormir você me acorda?" (Julia Galloro)

26/09/2007

poder

O vaga-lume brilha no escuro, quer melhor que isso? Que super-heróis, que nada! Queria mesmo é ser um vaga-lume.

24/09/2007

seu claudionor

Como é maravilhoso saber olhar a vida pela boa lente. Hoje fui ver uma casa que estava à venda, sentado lá dentro estava o seu Claudionor, o plantonista.

Muita gente no lugar dele poderia estar praguejando a falta de sorte, ou ainda, entregue à sorte, sentindo-se uma pessoa pequena, ou ainda e pior de tudo, desafiando a sorte, na preguiça e desdém dos momentos. Sei disso porque já cruzei muitos plantonistas na busca desenfreada de um lugar pra eu morar.

Mas dessa vez estava lá o seu Claudionor, sutil, sabedor da sua missão, orgulhoso por ser o plantonista. Me deixou à vontade mas estava presente. Fez questão de abrir todas as janelas da casa, as portas.. uma casa grande. Eu dizia que não precisava e ele dizia precisa sim, esse é meu trabalho e esse é seu interesse, ver bem a casa. Então porque não? Porque depois o senhor precisa voltar tudo e fechar. Mas essa é a minha responsabilidade, abrir e fechar as casas para os clientes. É por isso que recebo meu dia lá da Kaufmann, boa empresa viu?. E eu então comecei a admirar aqueles gestos simples.

Seu Claudionor abria as janelas e enaltecia a vista, mas sem mentiras. Ele dizia, olha dessa janela a senhora vai ver os telhados da outra rua, mas o bom é que a casa fica no alto, por isso a senhora vê os telhados sabe? e casa no alto é boa porque é mais segura. Ele ia me dando o lado bom das coisas sem nem perceber, porque ele é assim. Otimismo é nato, ninguém consegue ensinar alguém a ser otimista e bem humorado.

Durante a visita, seu Claudionor me contou a vida dele, elegantemente. Sem encher o saco, sem ser intruso. Ele me disse que a coisa mais importante que fez na vida foi comprar sua casa própria. Foram 40 anos de trabalho para receber da empresa 90 mil. Achou uma casa por 82 e nunca ficou tão feliz. Enalteceu também a empresa que lhe proporcionara essa condição sem fazer a conta que 90 mil dividido por 40 anos deu pra ele apenas 2 mil duzentos e cinquenta reais por ano. Ele não fez essa conta porque pra ele isso não interessa, só interessa o que é bom.

Ele me disse envaidecido que tem dois filhos, homens feitos já, e que agora o mais velho de 24 anos não tem mais assistência médica porque acabou a carência do convênio, mas ele se preparou desde os 20 anos e em quatro guardou um pouqinho por ano pra agora ter um bom plano, e o mais novo que fez 20 vai fazer o mesmo. Fiquei pensando nisso, e minha vontade era de ir até a casa do seu Claudionor com ele injetar mais alegria na minha vida.

Por fim, seu Claudionor me falou da esposa e do quanto ela sempre acreditou e esperou com ele a hora certa das coisas. Aí, me desejou sorte ao falar que eu tô no rumo certo, que a melhor coisa na vida da gente é a nossa casa e a nossa família, e fechou dizendo, não tenha pressa, tenha apenas certeza.

Seu Claudionor, obrigada. Aprendi muito com o senhor hoje. Um plantonista da vida.

17/09/2007

era uma vez...

Lá em casa a contadora de histórias oficial da família chama-se Beatriz. A pequenina Bia, que tem peso de bebê mas sabedoria de gente grande.

Desde bem pequenininha ela não apenas falava palavrinhas mas concluía assuntos. Por muitas vezes nos deixou de boca aberta, sem nossas palavras à frente de suas tantas que ela diz e ninguém sabe de onde aprendeu, como por exemplo, estou ansiosa, desse jeito eu vou ficar chateada, é muita humilhação, que esplêndido, adoro vestidos brilhantes, essa vida é um paraíso, e por aí vai..
Lembro os 4 aninhos dessa articuladora de enredos.

Ontem estivemos na praia em casa de amigos e foram horas à escuta de histórias fantásticas, inventadas ou não, histórias mágicas que a Bia conta. Pára todo mundo pra ouví-la, os irmãos, o pai e eu, os amigos que acabaram de conhecê-la. As novas babás então ficam pensando, aonde vou aprender a contar histórias melhor que ela? E ela, perspicaz e atenta, sabe desse dom e explora nossas admirações. Faz caras, bocas, vozes.. é mais que contar histórias, Beatriz gosta de interpretar.

Pra ajudar ela se cerca de amigos imaginários assumidos, que também ganharam nomes que só ela mesmo podia ter dado, o Edi e a Sarina. E ela convence tanto, que todo mundo tem vontade de ter amigos iguais.

Mas o melhor da Bia é que ela é dona da sua imaginação. Não é o contrário. Ela sabe bem a hora de parar, bem dizendo, a hora que quer parar e fincar pé no chão. Geralmente isso acontece quando tá todo mundo na viagem de seus sonhos mágicos, aí ela levanta e diz, agora chega que o Edi e a Sarina, ou o pato listrado que ela batizou em uma nova história, ou ainda a pequena princesa, não importa quem, acabaram de voltar pros livros e agora nós vamos fazer outra coisa...

Às vezes fico pensando e tentando descobrir um jeito de fazê-la nunca perder esse dom. Sei lá, colocá-la no teatro desde cedo, levá-la a todas as livrarias do universo, ler em casa a toda hora pra que ela continue tendo exemplos, mas no fim páro e percebo que cada um ensina a vida com alguma coisa nata, e aprende com ela outras que não sabe bem.

Então relaxo, porque tenho certeza que com mais intensidade ou menos, a Bia sempre vai ter grandes histórias pra contar das suas interessantes experiências, e eu vou ter o enorme privilégio e prazer de ouví-las.

E junto da nossa (be) atriz seremos felizes para sempre.

obs: vejo hoje que não haveria outro nome pra minha filhota.

14/09/2007

quando casar sara..

Cresci em meio ao enfrentamento da dor sem medo dele. Qualquer que seja a dor, aprendi que dá pra administrar. A dor de perder algo é doída demais, a de perder alguém é quase insuportável. A dor da espera é tão dolorida que passa, a dor da alegria estimula. Porque alegria dói também, dói aquilo que você tem e o outro, que você quer tão bem, não tem. A dor comum, aquelas das doenças, doem menos que aquilo que fez você se atribuir a esse sofrimento, então que mudem as regras da sua vida agora, porque você suportará melhor, e às vezes, até o milagre da cura se fará. Sim, há dor, e daí? A dor mais bonita é a de parir, então se é assim e eu sei que é, dor é estigma pra mente que não sabe enfrentar. O lutador apanha, isso é um fato, mas o que importa pra ele é o quanto suporta, mesmo em dor e sangue, ficar em pé. Os Galloro vão para o ringue. Não sabia disso até uma amiga na dor e na alegria me dizer isso. E o Rocky Balboa também.

07/09/2007

véspera de aniversário

Na véspera do aniversário da gente tudo parece que demora. Você espera o ano todo pela festa, pelos amigos, pelo bolo com velinhas, e aí quando tá bem pertinho, a sensação é que não chega nunca. Será que dá tempo de acontecer essa festa? E se alguém não for, e se chover demais, e se não chover nem um pouco, e se eu quebrar o braço? e o nariz? ai Deus, chega logo esse dia enquanto eu ainda tô bem...

Apesar dos meus filhinhos se prepararem pra fazer apenas quatro aninhos eles se sentem assim. Estão preocupados, ansiosos e radiantes. Roem unhas e ficam perguntando a cada minuto quem mesmo dos amigos que vão estar lá, e a gente repete nome a nome como locutor da tele-sena.

Reparei que essa carga de energia é tão grande que invariavelmente as crianças,principalmente, tem sempre alguma coisinha na tal da véspera, tosse, febre, um olhinho inflamado.. mas no dia da festa tudo passa e os presentes do dia seguinte ficam imunes a qualquer probleminha de saúde.

Eu tô animada e ansiosa também, por eles. Fico pensando se tá tudo providenciado, se eles realmente estão representados na festa que escolhi, mas acredito que sim. Procurei um lugar que tivesse o que eles gostam para brincar, chamei as crianças que eles falam e convivem intensamente. Nossa família que não falha e muito carinho.

Vou de jeans pra me esbaldar ao lado dos três. Correr, pular, me divertir com a diversão que eles aguardam. Lembro do meu casamento e entendo que os momentos onde somos protagonistas na vida nos deixam numa vulnerabilidade boa, amadurecem a gente.

Por falar nisso, a chegada do aniversário também te escancara o ano todo que passou. De um dia pro outro aflora tudo o que se viveu em 364 dias anteriores a ele. Como se de repente, alguém ligasse um botão novo da tua trilha. Hoje acordei com eles me chamando, e enquanto declamava pela nona vez em meia hora os amigos que eles convidaram, fiquei perplexa ao ver como meus filhos cresceram, estão lindos, firmes, inteligentes e surpreendentemente grandes perto de mim.

Quatro anos dia 11. Acabaram-se os meus bebês. Ganho agora 3 mocinhos.

03/09/2007

chega!

Comecei o ano de 2007 decidida a mudar, mudar tudo, quebrar o passado, romper. E como mágica e aceite, os anjos à sua volta dizem amém aos seus pedidos, e cá estou eu cumprindo minha decisão.

Primeiro decidi romper com as pequenas discussões que transformam nossas vidas em grandes desastres, e a começar do meu casamento tudo se abriu e voltou à paz (às vezes o rompimento não é com pessoas mas com hábitos).

Depois virei a página profissional. Disse adeus a dez anos e dez mil reais. Que alívio... era preciso! e mais uma vez abriu-se o mar pra eu passar.

Aí, a eii! que é o fruto do rompimento anterior está quebrando recordes de tempo e de alegria de muitos, além de quebrar paradigmas tipo bellow e above, e sociedade por objetivos comuns. (Minha sócia e eu somos muito diferentes, em estilo e pensamento, mas quando se está disposto a dar certo "alguém" que não importa quem ou da onde, decide junto e tudo segue). De novo a mágica e os anjos.

Na semana passada rompi com meu Dobló, que eu adorava porque era grande, prático, diferente, além de ser o primeiro carro que levou meus filhotes pra passear, e parti pra novíssima Zafira, clássica, menos prática, mas mais confortável. E terminei um desejo que deu lugar pra outro, mostrando meus ciclos da vida.

E agora, novo rompimento. Depois de 3 anos, quase 4, lá se vão as babás que acompanharam meus pequenos. Triste eu? Definitivamente não. E nem elas e também não eles, as opiniões mais importantes nesse fim. Simplesmente acabou e já parece aos meus olhos que tudo será bem melhor.

Sentindo tudo isso acontecer e a vida continuar muito bem, acredito mesmo que temos, de vez em quando, que ter coragem de acabar, de romper, de mudar. Quebrar vícios ou até mesmo coisas que te levam pra trás, pra busca de um começo que já foi. É o tempo e o movimento. Às vezes a gente anda, mas na verdade tá parado, passa os dias só que não evolui, corre atrás do rabo.

Ah, eu tô tão aliviada com minhas mudanças que nem sinto tudo que estou precisando fazer pra construir novamente o que já era seguro. E acho que é isso que te faz adiar os finais. Medo ou preguiça de recomeçar.

Mas eu garanto, basta decidir pra perceber que o difícil era apenas a própria decisão de ser ou fazer diferente, porque na prática, depois que você parte pro abraço, é que realmente sente a alegria de ter feito o gol.

Acho que amanhã vou começar o dia quebrando o pires no café da manhã, como os gregos... será que tem alguma coisa a ver?

Fim.

30/08/2007

impostos brasileiros

A carga tributária brasileira te entrega pra carregar uma carroça de lixo orgânico misturado com aqueles que poderiam ser salvos. E para piorar ensina que esse lixo todo deve ir pro rio de dinheiro que deveria ser de água potável. Então o rio seca e o lixo bóia e pára nas encostas. Enrosca-se pelos bueiros de dúvidas e cálculos e inunda tudo de cheiro mal. E como a carroça anda e as costas são largas, porque são tuas, o governo continua comendo coxas de frango e jogando os ossos em qualquer latão na sua frente. Dá nojo. Será que um dia a gente aprende a reciclar a apatia ou vai mesmo é morrer de sede fiscal?

29/08/2007

roseirista

Minha vida veio indagar porque que é rosa se é vermelha? e porque que é nome também? mas tudo é nome, até rosa vermelha é nome. Mas nome de flor ou nome de alguém? isso nem importa desde que seja rosa. Mesmo que não seja vermelha? Sim, rosa é rosa meu bem. Então roseiras que dão rosas são rosalinas, rubras e rosadas? Até são roselhas, são ainda roseirais róseos e rosetes que podem ser de rosas vermelhas ou de vermelhas rosas na vida de alguém.

27/08/2007

luz, câmera e ação

Sábado foi aniversário do Tin, e como não podia deixar de ser ele passou esse dia fazendo uma das coisas que mais lhe dão prazer. Ele passou o dia filmando.

O Tin é o filho da Otília, irmão da Mariana, pai da Lorena e da Manuela, marido da Ana Paula, amigo da Toty, padrinho da Julia e mestre da luz. O Chico Buarque do cinema rodeado pelas suas belas mulheres.

Filmar pra ele é como escrever canções. Cuidadosamente mergulha na alma da imagem e tira dali belíssimas interpretações pra nossa boa sorte. É quieto, melhor dizendo discreto. Teria todas as razões pra anunciar os reconhecimentos que o cinema tem lhe proporcionado, só esse ano foram três dos mais importantes até agora. Mas não, ele prefere apenas realizar os seus grandes feitos, literalmente por amor à arte.

Ah, eu que não sou boba nem nada sou comadre dele. E na condição de mortal anuncio com orgulho esse fato. O ditado diz que de pai e padrinho todo mundo tem um pouquinho. Tin, que a Julia puxe de você toda sua genialidade e entrega ao que escolheu realizar na vida. O signo e a responsabilidade ela já puxou.

Então, olhe pra câmera agora e sorria. Parabéns pra você.
Beijos de nós cinco. César, Cice, Julia, Pedro e Beatriz.

o ponto de exclamação

Ah, eu sabia! Jura.. Deus, obrigada! Que bom! Tem um moleque sim! Então, se tem um homenzinho, eu já sei como vai chamar!

Tenho uma exclamação na minha vida. Ganhei esse ponto que exulta, surpreende, deixa claro e enfatiza, da bondade de Deus e da torcida do meu pai.
Essa boa exclamação é o Pedro, meu filho.

Falo que a exclamação é minha mas tenho que confessar que aprendi dividí-la, porque todas as pessoas que simplesmente olham pro Pedro, exclamam também.

A verdade é que o Pedro encanta.

Olhos grandes e dóceis, generosos. Boquinha pequenininha mas de lábios carnudos. Cabelos castanhos, grossos e com poucos cachos. Ingênuo, puro. Encantadoramente meu menino. Seria bacana se ele existisse, e quase como se já soubesse que pedidos atendidos são sinais de gentileza, ele decidiu existir.

Com meu filhote aprendo todos os dias que as homenagens acontecem nos pequenos gestos, aqueles despreparados, espontâneos. Um pegar de mão preocupado se o avô está seguro, um levantar de sua brincadeira pra ajudar as irmãs guardarem os brinquedos que nem foi ele quem pegou, um carinho no rosto da gente que faz a todo momento, até dormindo...

O Pedro faz coisas que derretem a nossa razão. Como ontem, quando a Julia dormiu. Antes de dormir ela me pediu se podia levar pra cama a bonequinha Mulan. Eu disse que tudo bem, mas respondi mecanicamente porque eles pedem mil coisas ao mesmo tempo... aí quando o sono bateu eu a levei pra caminha e a boneca caiu de suas mãos. Ficou no chão perto do sofá um tempão até que o Pedro viu, na mesma hora ele parou sua brincadeira, pegou a boneca e saiu. Eu logo pensei, agora ele aproveita pra satisfazer a vontade de brincar já que a Julia não deixaria se estivesse acordada. Rápido ele voltou, e sem a boneca. E eu pensei de novo, danado escondeu pra sair encrenca amanhã. Fui atrás, entrei no quarto deles e a bonequinha tava lá, no travesseiro do ladinho da cabeça da Julia, quase como um abraço de amor. Fiquei comovida com ele, voltei pra sala e ele estava de novo à volta com seus carrinhos e heróis. Ele fez por ela, não por ele.

Com a Bia a mesma coisa. O Pedro sabe que a Bia gosta de contar histórias, então ele sempre dá a vez dele pra ela falar sem parar. Quando parece que ela acabou a carta de Caminha, ele pergunta, Bia agora é a minha vez? E ela sempre diz calma ainda não, e ele sempre espera.

E o Pedro vai ser sempre assim.

Vai fazer sem esperar troco, vai entregar pra vida alegria sem que ela tenha que devolver alegria pra ele. Mas por isso mesmo vai viver feliz.

Quando eu soube que na minha felizarda barriga de trigêmeos tinha um homenzinho no meio de duas meninas não tive dúvida, exclamei a minha alegria também. E confesso, nossas vidas não teriam a menor graça sem ele. Sem a grata presença de alguém que quer jogar bola toda hora, que sai com o pai num domingo pra ver carro, que com 3 anos e meio pára pra ver a largada da fórmula 1, que corre como o flecha, que não quer ficar dentro de loja no shopping, que faz graça na porta da escola pras menininhas, que faz xixi na tábua da privada, que prefere o giz de cera azul, que tira a cuequinha e deixa jogada no chão, que adora o homem-aranha e quer o controle da TV, que tem esses defeitinhos que todos conhecem, mas sobretudo que é um verdadeiro cavalheiro, cuidadoso e grande companheiro da gente. O meu menino!

Filho, sou tua!

24/08/2007

volver

Então eu queria poder voar, mas como não conseguia corri fazer umas asas. De tule e brocados costurei pedra a pedra por horas, e quando terminei ficou tão lindo! Olhei com orgulho e fui voar nos sonhos.

23/08/2007

memé

Memé era minha madrinha.

Bem, aqui vale um esclarecimento pra quem já leu "papagaio loro" porque lá também tenho uma madrinha, a Rosa. Só que em família católica é assim mesmo, você tem a madrinha de batismo, a de crisma e depois um monte de casamento.
Mas a Memé é a que puxa o bloco, a madrinha mais importante porque é aquela que te endossa pro mundo, a fiadora da tua boa vida, da tua devoção à Deus antes mesmo que você possa concordar. É a madrinha de batismo.
Eu sempre adorei que mamãe tenha me escolhido para entregar à Memé minha história. Fui batizada com 20 dias de vida e mesmo quando eu já era grandinha ela mantinha exatamente a aparência que as fotos desse dia a apresentavam. Uma gostosura de gente do bem, baixinha e gorduchinha.
Muito vaidosa sentava à frente da sua penteadeira de três espelhos todos os dias. Passava pó de arroz clarinho com aquela esponja de flanela amarrada com um laço, batom rosê que abria como se fosse um doce, e arrumava seus cabelos bem pretos com dois pentes de cinco pontas. Depois, corria as mãos de unhas sempre feitas atrás do perfume mais tradicional do seu tempo e de suas argolas de ouro, aí sim estava pronta para a casa. Mesmo católica como já anunciei, na companheira penteadeira, uma estatuazinha de uns 3 cm do Buda permanecia rodeado de moedas. Pensando nisso, me veio agora que se a Memé fosse homem até que podia ser o Buda, tanto fisicamente como espiritualmente..
Caminhava com dificuldade da sala para a cozinha e lá fazia belos almoços, suculentos como as boas Carmelas os fazem. Experimentava tudo e enxugava as mãos no avental que combinava com o vestido antes de lavar as colheres que tinham ido à boca. Ia do fogão para a pia um montão de vezes por conta disso. Usava uns chinelinhos chiquérrimos, ora de plumas ora de couro com furinhos em cima, e quando estava cansada sentava-se na sua poltrona azul, de costas para a porta de entrada que permanecia destrancada porque não tinha do que temer, cobria as pernas com um chale de lã e lá cochilava fazendo bico.
Todo mundo gostava da Memé porque ela era cheirosa e bondosa.
Em cima da sua cama coberta com colcha de chenil, guardava uma boneca de louça. Somente o privilégio de ser afilhada dava o direito de pegá-la no colo nas horas de visita, e mesmo assim, docemente a Memé pedia cuidado. Igual carinho tinha com o piano de madre pérola, uma caixinha de música que tocava uma valsa linda para que a bailarina de saia vermelha de veludo pudesse dançar. Um mimo da sua mãe e que só a Memé mesmo poderia ter herdado.

Já faz tempo que a Memé se foi. Eu tinha 22 anos. Recebi aquela notícia e fui ver a Memé pela última vez. Ela mantinha a doçura e a beleza de sempre. Vestidinha com todo o cuidado nas combinações, maquiadinha como todos os dias parecia até que já havia deixado tudo isso preparado. E ninguém se entristeceu além do que o momento pedia.
Hoje enquanto escrevo sobre ela surge uma saudade apertada. Um desejo de deixar bem claro meu sentimento. Sei que por mais que eu tente nunca conseguirei transmitir com tamanha fidelidade o que a Memé foi pra mim um dia, e certamente ainda é. Talvez mais importante agora que já sou dona das minhas próprias palavras do que em seu colo aos 20 dias de nascida.

Madrinha Memé, era assim que eu te chamava, o seu pianinho de madre pérola ainda tá lá na casa da mamãe pra quem quiser conhecer, tocando a mesma música que enchia nosso coração de amor. A Bia, o Pedro e a Julia já o conhecem e cuidam pra que ele continue formoso. Por você e pra você. Tenho saudades. Até sempre e um beijo da Cice.

21/08/2007

o encanto

Vinha uma garoa comum pra aquela época, mas ela nem percebeu. Já tinha tudo na mente desde a hora que recebera o recado no dia anterior. Ia usar sem receio aquele vestido reservado para uma ocasião assim, era rosa claro e a saia capaz de se movimentar mesmo num dia sem vento. Correu para o guarda-roupas que carregava há anos um espelho na porta sem muito uso, ninguém ali tinha motivo já há algum tempo de se olhar e dançar na sua frente. Só que agora ela tinha. Esperou recatadamente por isso como sua avó tinha lhe ensinado. Ficava na janela florida, que tratava cuidadosamente todos os dias com água limpa, olhando o movimento, despreocupada com a preocupação de ser vista. Mas não podia ser qualquer visão, haveria de ser um encontro mágico, quem sabe um bonito moço de cabelos escuros.. Era o seu desejo. Dia-a-dia ela repetia a cantoria ao regar as flores, e tal ingenuidade encontrou sua resposta. Há sem dúvida o amor no ar, aquele que não precisa de muitas palavras, que um bom dia basta pra fazer o coração disparar e o próximo movimento ser anunciado. Depois de duas vezes os 7 dias da semana, ela sucumbiu ao convite de olhares e desceu pela escadaria. Ganhou não uma flor mas uma muda da flor mais querida pra plantar junto às suas. Exultou a educação e a intimidade que a distância proporcionara. Como ele havia percebido seu gosto se nunca sequer trocaram mais que quatro palavras? Porque era assim, ela corria pra ver ele chegar caminhando, e depois no final do dia, esperá-lo retornar. E ele não falhava. Nem ela.
Naquele momento em que recebeu a muda da flor soube que nada mais poderia dar errado, e sorriu uma luz que ofuscou o dia claro, diferente de hoje e que pouco importava.
Mesmo quando ele não veio o receio não lhe apertou a alma, ficou aguardando o que seria na certeza dos amantes. Foi quando o recado chegou. Uma cartinha singela dizendo te espero, venha como todos os dias te vejo, linda e leve. E agora estava na euforia do batom cor de boca e do esmalte transparente, vestindo sua reserva e calçando as sapatilhas de laço. Virou a quadra e o enxergou, de costas, de camisa clara, cumpridor do afeto que trocavam. Diminuiu o passo e foi ter com ele a primeira de eternas conversas de amor.

18/08/2007

autópsia

Ele abaixou em busca do couro gasto, parecia incrível mas a casa fazia de propósito ao enfiar o pisante por entre tantas tralhas, e sempre. Calçou e fez o caminho desenhado pelos anos agora de dia. Era a única diferença. Sentou-se naquela cadeira puída, que o fez em horas extras por muitos finais de semana insistente por trocar o tecido, e ela desafiadora continuava ali descorada. Até aquele momento o único presente na vida de pretéritos era o jornal que abriu na página de futebol. Não teve jogo do seu time, então nada interessou. Pelas grossas lentes embaçadas até tentou ver outro assunto, mas nunca soube o que é curiosidade. Então os pensamentos chegaram junto com o barulho das crianças da rua e ele ficou de frente com a alegria decepcionante pela primeira vez. Por anos escolheu o que não escolheria, bradou entre aquelas paredes emprestadas brigas e receios, viveu cada minuto cuidando para que tudo desse certo dentro de uma caixa de erros, e agora estava lá. Foi levado pela dúvida até a janela e o pó que subia dos pés da bola de capotão lá de fora, se misturava com as risadas daqueles pequenos que um dia poderiam estar como ele. Que jeito não, se o lugar convidava? se tudo exigia assim? Por um instante da vida toda teve um sentimento. Dó de si mesmo por acreditar em tantas mentiras contadas por cada canto do mundo. Tentou ter coragem de dizer isso pela janela, alguns ouviriam e mudariam seu curso, mas o peso do tempo, habituado a ser desse jeito, calou o único sorriso possível. Então, voltou ao jornal de ontem antes que ele fosse embrulhar as frutas porque tinha alguma coisa do seu time, e num último lampejo ele viu que por entre as lentes grossas jamais enxergou o hoje. No ontem via o amanhã, e agora que era amanhã não enxergava mais nada. Nessa conclusão, fechou as páginas do momento e arrastou os chinelos até a cama esperando.

17/08/2007

papagaio loro

No carro pela manhã ouvi minha Marisa cantando ...ele tá de olho na boutique dela... uma música que era cantanda pelo Genival Lacerda quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, sei lá. Era o Genival e o Loro que cantavam essa música na época. E o Loro era o papagaio da minha madrinha.

Marisa canta já faz tempo, mas hoje ouvi com ouvidos de infância. Me vi pequenininha olhando pra gaiola que ficava em cima da máquina de lavar roupas. E ele lá.

Papagaio é um bicho engraçado a começar porque é verde, depois tem dois olhos do lado da cabeça não na frente como os da gente, e acho que por causa disso não pára no puleiro, fica mexendo pra lá e pra cá, buscando enxergar tudo.

O Loro cantava essa música inteirinha e quando acabava pedia pra gente cantar e aí dançava. Chamava o Popi, um pequinês que se achava esperto, o dia inteiro. E o dia inteiro o melhor amigo do homem procurava por alguém que era o Loro. Que ótimo.
Às 6 da matina o Loro chamava a Rosa, a madrinha, que tinha que levantar pra dar café pra ele senão nem ela nem os vizinhos mais dormiam. Repetia-se tal gritaria à tarde, 5 como o chá da rainha, porque o Loro queria que cubrisse a gaiola pra ele dormir.

Ir na casa dela era ficar horas olhando aquela gaiola. Junto com um monte de vasos de plantas ficava o Loro, elas e eu. E o Loro era meu filho, o Popi era visita, e os vasos todos os lugares da minha imaginação.

Um dia minha madrinha mudou. A vida foi dura pra ela e teve que ir pra um quarto e cozinha com quintal junto com outras famílias. O Loro falava muito, fazia barulho, os cachorros latiam e a história mudou junto. A Rosa, com os olhos inchados de lágrimas, teve que dar o Loro. Deu pra um vizinho lá da casa de antes, que tinha um sitio e prometeu cuidar dele. Foram anos, muitos mesmo, de conversa com aquele papagaio. Dela, minha, dos meus irmãos. Uma perda que deixou uma parte feliz da minha vida de criança meio que sem resposta. Não entendia bem porque ele foi.

Hoje, lá com a Marisa, entendi tudo. Ele veio pra eu lembrar nesse dia de como minha infância foi genial, e ele foi pra que a gente entendesse que a vida passa mas as lembranças enchem nosso coração pra sempre.

Suspiro pela Rosa e pelo Loro. Agradeço pelo Genival e pela Marisa.

16/08/2007

as sombras ou ainda, assombras

Porque será que todo mundo quer saber do outro quando se tem tanto a querer saber de si mesmo? Sócrates já anunciou que não sabemos de nada, então que diabos os não estudiosos e nem sequer estudantes resolvem descobrir o que não existe? Junto dessa obstinação ainda decidem o destino da história que não escreveram, que colaram o contexto, adulterando seu fim numa tentativa de adivinhação.
Medo, inveja, falta do que fazer, insegurança, culpa? Que será?
Ando me divertindo à beça da cara dos assombrados pelas suas próprias sombras. Diariamente varro as tralhas que querem atrapalhar. O livro já está escrito. Com seu final imutável e desenhado pelos seus próprios autores ele vai às prateleiras.
Agradeço por fim dormir bem, e ter apenas a minha própria vida pra cuidar.

15/08/2007

mangalô 3 vezes

Um dia igual ao de ontem mas já poderia ser sentido estranhamente diferente. Se prestasse atenção teria blindado o curso de tudo que estaria por vir.
O carro quebrado no dia seguinte do seguro vencido, que nunca vence, mas a corretora esqueceu de avisar, que nunca esquece. E eu, que nunca me antecipei, lamento minha própria entrega à sorte. O carro que foi negociado pra venda, praticamente na rota de outro destino, que tinha um destino pra hoje e não cumpriu. E agora suspende o novo por mais alguns dias. Quantos? Só os deuses da concessionária sabem. Mas porque eles? É que o guincho foi guinchado e não veio a tempo de levar no Hiroshi (ma). Depois, o completamente improvável à prova. Como algo que não tinha como acontecer aconteceu? Não, não falo mais do carro. Porque, se era tão simples? Por conta de esconderijos a verdade sempre vem à tona. Mas com ela, mesmo sabendo que é melhor agora, vem os outros "nós" dessa corrente. Decidir quem pode puxar ou quem segura o cordão é o primeiro ponto estreito. Aí, cólicas. Cólicas?? Nunca existem, porque hoje? 24 anos depois?
Acho que acabou. Não muito, acabou a oportunidade de fechamento porque o improvável realmente se provou. Não é possível, falta um berro ardido, mas antes que ele viesse, uma luz:
A vida não é só coisa boa e feliz. Paciência e destreza são as ordens pra um dia desses.
Então, até amanhã.

madrugada minha

Ouço o som dos meus próprios passos. Todos os dias repito os gestos que me dão uma alegria que chega a doer.
Venho pra este lado da casa sento desconfortavelmente porque nem apoio para as costas, e fico no velho banco branco que já mudou comigo nove vezes. Ereta, postura que não tenho com o dia claro.
Tudo vai se confortando.
Depois é fácil, um transe, e passo a contemplar o barulho do silêncio.

É a minha madrugada, e junto dela o momento do poder absoluto perante o mundo. Tá tudo aqui.

Por trás das portas que não rangem essa hora, posso ouvir o ressonar de quatro vidas. Esse som que o silêncio me dá é perfeito. Dele discorre e escorrem muitos outros. O trem que ainda passa por esses lados e me leva pra tais momentos. Ecos e vozes indecifráveis são presentes da madrugada.
Viro-me e me escuto de novo, por dentro, pelos ossos que estalam por estarem retos. Posso ouvir o que só ouviria de olhos fechados.
Sou tudo sem nada. De pijamas, como nas imaginações. Que bom.

Nesse escuro silêncio eu leio e escrevo e ainda falo. Falo tudo no caderno de margem vermelha porque gosto dele. Falo o que virá e o que foi. À mão. Depois, ouço o que me diz que eu disse, discordo em boa parte e então, fico apenas.
Não descanso se não sentir o bônus da noite.

Ah! madrugada, você bem sabe que sempre te gostei. Fui criada pra você, pela boemia e pela contemplação.
O tempo já me deu a boemia e agora entrego pra ele a tua espera.

14/08/2007

nem mais e nem menos

Colocar os esforços na medida como devem ser. Nem mais e nem menos. Porque mais ou menos significam fora do ponto. Estragam tudo.
Parece simples, mas tente por um minuto calibrar suas intensidades, você vai encontrar invariavelmente grandes dificuldades, e mesmo que você finja que não são, só por esse fato já foram.
No final, acredito que somos datados para querer algo que na verdade não era preciso, mas por isso mesmo não bastava que se admitisse. As pessoas adoram estar complexas como se o simples fosse envergonhador, e para piorar fogem da vergonha olhando pro outro e atribuem por ali as suas culpas. Uma pena. Eu ultimamente rezo para conseguir morrer de vergonha perante os outros.

10/08/2007

trifrases

...sabe mamãe quando eu era "Egita" eu andava de camelo! (Bia Galloro)

...olha, no escuro a gente não tem cara!? (Bia Galloro)

...Cris vamos brincar de casinha? você vai ser babá também tá? (Julia Galloro)

...hoje na escola eu subi de teia na cadeira da Tia Lygia. (Pedro Galloro)

...eu não quero assistir mais os jogos americanos de corrida papai. Põe no discovery por favor... (Bia Galloro)

...hoje eu vou dormir só depois que eu acordar (Pedro Galloro)

...olha todo mundo pra cá que eu vou virar uma calhambota (Julia Galloro)

mãe é mãe (fã-clube)

Filha tenho outra rotina. Abrir todo dia o "teu sei lá o que", mas que é lindo. Aguardo sempre o próximo.
Me encho de emoções, de orgulho e de tudo
De quem é a poesia do dia 06.
Não me diga que é tua se não morro.
Coisa linda
Não dá pra continuar porque o papai já saiu e está chamando pra levar os pitucos
Bjs
Mama

3 em 1

Lá em casa é assim: A Bia é a cabeça, a Julia o corpo e o Pedro o coração.

09/08/2007

simples assim

Domingo dia 5 foi dia de aniversário. 10h30 da manhã e muitos amigos juntos. Foi dia de festa de aniversário, e uma festa tão linda que aqueceu minhas melhores lembranças.

Tinha o essencial. Vela que apaga num assopro só, bexigas coloridas, tinha chapéuzinho de papelão amarelo e rosa, resta 1 de lembrancinha. Tinha família sentada em sofá, que veio de longe, da terra do santo. Tinha os primos, os amigos de todo dia e os de vez em quando, e também aqueles que já foram de todo dia e hoje são de vez em quando. Máquinas de fotografia cada um tinha a sua e registrava a alegria a seu modo. Tinha a celebração do céu em lágrimas de felicidade, e até o vento queria dar o seu alô. Tinha brigadeiro e pão de queijo. Um monte de livrinhos espalhados despreocupados se alguém pudesse estragá-los, e por isso ninguém estragou. Tinha os brinquedos da casa, que desceram sozinhos para o salão durante a madrugada. Tinha pula-pula e amor.

Ah, também tinha uma flor vermelha na lapela. Sofisticadamente simples, aquela florzinha circulava pelos nossos olhos e fazia a gente derreter até os joelhos para alcançar a grandeza daquele tamanho todo de gente.

Na hora do parabéns tinham vozes e palmas... lembram das palmas nos parabéns? Então, tinha também. E junto delas tinha uma graça. 3 mulheres fortes e um homem sábio. Uma paisagem.

As vozes simples adormeciam os pensamentos corriqueiros e a sensação que se tinha era que tudo podia parar por ali.

No domingo dia 5 foi dia de aniversário. 10h30 da manhã. Fui convidada pra festa e ganhei o presente.

07/08/2007

doce julia

Julia é minha filha mais nova. É engraçado dizer isso quando se tem trigêmeos, mas foi ela quem nasceu 4 minutos depois da Bia e 2 minutos depois do Pedro, então pra mim é a mais nova. É da Julia também o pior lugar na minha barriga, foi ela que ficou no chamado "puxadinho" durante as 33 semanas de gestação, embaixo das costelas e espremidinha entre o Pedro e o meu peito.

Por isso nasceu menor. Bem pequenininha, um sapinho cabeludo de 1,620 kg.

Lembro de olhar pra ela dentro da encubadeira e sussurar que tudo ficaria bem. Ela me olhava e aquele olhar me dizia a força que tinha, que o fato de estar ali era apenas pra cumprir com o capricho dos médicos. E eu acreditava cada vez mais nisso quando a pegava no colo. Ela ficava encaixadinha no meu peito e seus pezinhos nem alcançavam o começo da minha barriga, mas conseguia ganhar peso, mamar e respirar mais rápido do que os irmãos e todos os bebezões que andavam por ali.

O médico, especialista trigemelar, já me dizia nas consultas que um dos três seria pequenininho porque o útero é como um copo de milk shake com 3 canudos, um sempre toma menos... Mas em compensação garantia também que é desse pequenino a personalidade mais forte, já que aprendeu na prática que na vida nada vem fácil, desde a barriga. Portanto saia de baixo, esse pequeno ser não iria levar desaforo pra casa.

Hoje, quase 4 anos depois, minha pequena Tutu que ficava poderosamente na sua macro encubadeira de barriga pra baixo, tá grande, inteligente, forte e com muito do que o Dr. Eduardo profetizou.

A Julia é uma fortaleza de olhar doce.
Nasceu pra cuidar da gente. Zelar pra que tudo fique bem, principalmente com seus irmãos.

Um dia a professora me chamou na escola pra dizer que ela mal brinca no recreio porque fica cuidando deles, uma verdadeira guardiã. Nas festas dos amigos a mesma coisa. Em casa ela também cuida, mas ao seu jeito. Bravo, decidido. No seu ambiente de domínio ela não perdoa, avança se as coisas não estão do seu agrado, mas atreva-se a olhar feio pra um dos dois que você vai conhecer a fúria da Tuca. Ela faz o tipo, só eu posso bater neles...

A Julia também é tímida, desconfiada. Entendo que isso ainda é reflexo da gestação, porque imagine você ficar escondida e tentando sobreviver por 7 meses e meio...

Mas, ao mesmo tempo, sua doçura cria lances como o de ontem, ela liga pro meu celular pra dizer que está com tanta saudades que a barriga tá doendo. Só que se perceber que eu amoleci ela diz que não era pra ter me contado, que era segredo. De todas as belezas que ela me presenteia diariamente, tem uma que eu prefiro. O melhor da minha Tutu é que é dela as gargalhadas mais sinceras, espontâneas e contagiantes.

À noite, enquanto rezo, fico pensando nela e pedindo pra que Na Senhora me ajude a criá-la sem receios, sem amarras com a responsabilidade. Livre. Mas ao mesmo tempo sei que sua personalidade já se desenhou e que invariavelmente vai viver as suas verdades.

E então Na Senhora me responde. Ela fala comigo através dos olhos da própria Julia, que da mesma forma como me olhava na encubadeira, me garantem que as 33 semanas que viveu na minha barriga ensinaram que por mais difícil que possa ser os seus espaços na vida, ela vai tirar de letra. Gargalhando.

Então eu sorrio, encho meu coração de paz, vou até a sua cama, cubro a minha caçula e continuo rezando feliz.

palhetas - por flávio galloro

Eu no cliente;
Telefone toca;
“Pedro Comobra”
Oi Pai;
Flavio??
Oi Pai;
Cê não tem uma palheta?
Palheta? Que é isso?
Aquela coisa de tocar violão...
Pra que você quer isso?
É que eu me inscrevi na Unicid nuns cursos de quem não enxerga...sabe? Cegos?
Sei....
Me inscrevi em informática, música.....e hoje me chamaram pras aulas....é um cego que dá aula, e pediu pra levar uma fita cassete e uma palheta....
Acho que tenho alguma em casa, vou ver se acho e te levo.
Ta bom filho....obrigado.

Fiquei pensando que diabos esses cegos vão fazer com palhetas....quando elas caem no chão até a gente que enxerga bem tem dificuldades de encontrar....pra eles vai ser o final do curso....

06/08/2007

ser e estar

Como é fácil ser feliz.

Basta um bom dia igual ao de sempre,
um leve esbarrão de gente.
Um olhar que você conhece,
uma palavra de todos os dias, quase como uma prece.

Basta o telefone tocar e surgir uma pergunta sem nexo, um pretexto.
Basta que se ouça um texto,
Que já foi lido,
e no final sentir-se surpreendido.

Simplesmente basta um apelido ser pronunciado,
Deixar um pedaço de bombocado.
Basta o fato de dividir um segredo,
de fingir um pouquinho de medo.

Basta um suspiro no escuro pra saber se está acordado.
A troca de olhares de lado.
O cheiro do perfume no ar,
um jeito de rodopiar.

Basta que quando você apareça,
um breve "oi" te envaideça.
Pode ser amigo, amor ou família
Segue-se a mesma trilha.

Pra estar feliz precisa mais,
Mas pra ser feliz bastam esses sinais.

04/08/2007

conto(a) de amor

44 anos de casados, 3 filhos, 6 netos por enquanto, 2 faculdades completas, 800 cursos de noivos ministrados, mais uns 800 de casais, e uns 1000 de batismo, todos os domingos juntos na missa das 9h30 desde 1963. 2 casas próprias e 1 terreno em Itanhaém que até agora ninguém sabe onde é.

1 cirurgia do estômago, 2 de coração, diálise 3 vezes por semana, 6 vezes por semana para levar e buscar na diálise. Almoço às 12h30 porque mais tarde o papai não pode, jantar às 19h em dias comuns, 20h45 em dias de diálise. Atualmente 1,5 pedaços de pizza aos sábados pra cada um. Antigamente 6 pra um 2,5 pra outro. 500 tipos de remédios diferentes.

3 selinhos invariavelmente quando chegam da rua, nos raros momentos em que não estão juntos.

66 anos.
64 anos.

6 para os 50 anos de casados, as Bodas de Ouro.

Todos esses números resumem a vida dos meus pais, mas não conseguem nem de perto chegar próximo a uma conta que estime o amor que existe entre esses dois.
Arrisco qualquer agrupamento de zeros e mais zeros seguidos do 9, e mesmo assim não faço sombra pro que poderia ser uma escala do amor deles.

Sou filha mas não sou suspeita, é de dar inveja. Não, não imaginem que esse amor fica acomodado pelos contos de fada. Muita coisa na vida deles não foi cor-de-rosa, e ainda não é. Tem briga nesse meio, 4 feias que eu me lembro e umas 500 por dia, daquelas de dar risada. Mas não abala, não arranha sequer a estrutura que eles firmaram no dia 08 de junho.

Outro dia tocou 3 vezes o meu celular e eu não pude atender. Insistiram, olhei era meu pai. Atendi no 2 toque, interrompendo a reunião, porque temos levado alguns sustos depois da explosão de consequências que a diabetes lhe causou.

-...Alô?!
-Oi filha.
-Oi pá...
-Viu, tua mãe e eu estamos pensando na nossa festa.
-Que festa?
-A de Bodas de Ouro.
-Quê?
-Bodas de Ouro cáspita, não sabe o que é isso?
-Lógico que sei, mas quando é essa festa?
-Daqui há 6 anos. Vi com ela da gente ir guardando uns 200 reais por mês até lá. Vc que mexe com festa acha que vai dar pra gente fazer um festão quando chegar a hora?

Que lindo. A verdadeira despreocupação com o tempo, com as coisas que não são boas. O olhar na alegria que eles me ensinaram a ter, presente e pulsante naquela hora. Encheu meu dia de esperança e meus olhos de lágrimas.

-Ah pai, acho que dá pra ter alguma coisa... mas falta tanto, a gente vê na época uma vaquinha e faz a festa.
-Que vaquinha, que nada, você tem três filhos e é neles que você tem que pensar, teus irmãos também. Eu e a mamãe damos conta..

E eu sei que dão porque sempre foi assim. Meus exemplos, meus amores.
Aqui registro 100% de amor e mais 100% de dedicação sábia, sem medo dos "nãos" que a vida solicita.

Mamãe e Papai, obrigada. Nota 10 pra vocês. E que venha os 50 anos dessa união eterna.

03/08/2007

crazy dos 40

Quem imagina que há de se viver um caos perto dos 40, se engana. Estar por perto da tal idade da loba (existe isso no feminino?) é muito gostoso. Você pode olhar pra trás e também pra frente, os 40 são literalmente o meio do caminho.

A média de vida dos brasileiros é de 71,3 anos. fonte: IBGE 2003, a mais atualizada Brasil!!...

Como pra trás é passado e pra frente só Deus sabe, os 40 te dão isso também, a sabedoria de viver agora. Vale pela clareza, pela consciência de mente e corpo e pelo enfrentamento das verdades. Só com lipo a barriga dos 20, só com lupo a perna lisinha, só com lupa o receio de ser feliz.

Sabe-se ser feliz aos 40. Isso é mais e melhor do que apenas ser feliz.

Então corra pra chegar logo. Experimente o vigor da fase. Aliás não corra não, porque cada fase tem a sua magia e assim que deve ser.

Espere apenas, e verá.

02/08/2007

relicário

... eu também trocaria a eternidade por essa noite.

01/08/2007

pé de meia

Filha, põe a meia. Não quero. Como não quero? põe a meia porque tá frio. Mas eu não tô com frio. Mas não é o caso de estar ou não com frio, tá frio e pronto. Depois eu ponho. Não, põe agora! Eu vou por depois... Olha só, teu pé tá gelado. Tá gelado porque eu tô com calor.. Mas que calor, tá oito graus lá fora, põe e não vou falar de novo. Então tá. Tá o quê? Você disse que não vai falar de novo... Escuta, você quer ficar doente? (Silêncio) Só que não é essa meia que eu quero, eu não gosto dessa. Então vem ver qual você quer. Aqui não tem nenhuma. Como não tem, tem oitocentos tipos de meia nessa gaveta... Mas a que eu quero não tá aí.... Santo Deus que difícil por uma meia no pé. Então mamãe é difícil, posso ficar sem?

Moral da história: Quando não se pode com eles junte-se a eles, ou então, compre pantufas.

30/07/2007

c de jaboticaba

Depois de um tempão criei coragem. Na verdade não é coragem é vontade.

Além de ter criado a vontade, perdi a preguiça. Pelo menos hoje. Mas como tudo aqui é hoje, ou pelo menos um desejo de dividir os "hojes" mesmo que amanhã ou ontem, surge o c de jaboticaba.

Apropriei-me da fruta que minha mãe mais gosta e come até cansar. Sobe no pé, na ponta do pé pra disputar com os passarinhos as mais pretinhas. Da árvore que tinha no quintal da casa do meu avô Lauro pra figura que figura nos olhos dos meus filhos. Os olhos deles são como os meus, já ouvi muito isso e assumo que também acho e gosto de achar isso. A nossa marca registrada, minha e deles, batizada pela minha comadre assim. Cice que tem olhos de jaboticaba.

Então, hoje pra quem não pode me olhar nos olhos por qualquer razão, faço desse espaço um jeito simples e despretencioso de ver e ser vista.
Uma maneira de olhar alguém ou algo e poder interpretar essa visão. Uma homenagem a todos os olhares. Como o do César que mantém o mesmo olhar de quando era uma criança.

Mas ainda prefiro as cartas seladas à tinta, a escrita romântica e secreta. Acho que ainda meio sem jeito.

Agradeço esse novo passo especialmente à Julia Fregona que trocou impressões juvenis sobre essa nova forma de se comunicar, ao bicho Ana que inspira nas mensagens, Antoniela do Canto (é muito chique chamar a Toca assim) que é a desbravadora das novidades e Fefêt pela beleza de seus textos. Um primor, uma leitura obrigatória.

E lá vamos nós.

guardadinho

eu sou

Minha foto
Gosto de boniteza, de arrumação, da moda dos anos 30. De margaridas e pérolas verdadeiras. Gosto da noite, de gente dando risada, do sabor colorido de um prato de feijoada. Gosto de sair e de mudar, gosto de família, de amigos e com eles estar. Gosto de dança e de criança, e gosto muito, muito do mar.