30/08/2007

impostos brasileiros

A carga tributária brasileira te entrega pra carregar uma carroça de lixo orgânico misturado com aqueles que poderiam ser salvos. E para piorar ensina que esse lixo todo deve ir pro rio de dinheiro que deveria ser de água potável. Então o rio seca e o lixo bóia e pára nas encostas. Enrosca-se pelos bueiros de dúvidas e cálculos e inunda tudo de cheiro mal. E como a carroça anda e as costas são largas, porque são tuas, o governo continua comendo coxas de frango e jogando os ossos em qualquer latão na sua frente. Dá nojo. Será que um dia a gente aprende a reciclar a apatia ou vai mesmo é morrer de sede fiscal?

29/08/2007

roseirista

Minha vida veio indagar porque que é rosa se é vermelha? e porque que é nome também? mas tudo é nome, até rosa vermelha é nome. Mas nome de flor ou nome de alguém? isso nem importa desde que seja rosa. Mesmo que não seja vermelha? Sim, rosa é rosa meu bem. Então roseiras que dão rosas são rosalinas, rubras e rosadas? Até são roselhas, são ainda roseirais róseos e rosetes que podem ser de rosas vermelhas ou de vermelhas rosas na vida de alguém.

27/08/2007

luz, câmera e ação

Sábado foi aniversário do Tin, e como não podia deixar de ser ele passou esse dia fazendo uma das coisas que mais lhe dão prazer. Ele passou o dia filmando.

O Tin é o filho da Otília, irmão da Mariana, pai da Lorena e da Manuela, marido da Ana Paula, amigo da Toty, padrinho da Julia e mestre da luz. O Chico Buarque do cinema rodeado pelas suas belas mulheres.

Filmar pra ele é como escrever canções. Cuidadosamente mergulha na alma da imagem e tira dali belíssimas interpretações pra nossa boa sorte. É quieto, melhor dizendo discreto. Teria todas as razões pra anunciar os reconhecimentos que o cinema tem lhe proporcionado, só esse ano foram três dos mais importantes até agora. Mas não, ele prefere apenas realizar os seus grandes feitos, literalmente por amor à arte.

Ah, eu que não sou boba nem nada sou comadre dele. E na condição de mortal anuncio com orgulho esse fato. O ditado diz que de pai e padrinho todo mundo tem um pouquinho. Tin, que a Julia puxe de você toda sua genialidade e entrega ao que escolheu realizar na vida. O signo e a responsabilidade ela já puxou.

Então, olhe pra câmera agora e sorria. Parabéns pra você.
Beijos de nós cinco. César, Cice, Julia, Pedro e Beatriz.

o ponto de exclamação

Ah, eu sabia! Jura.. Deus, obrigada! Que bom! Tem um moleque sim! Então, se tem um homenzinho, eu já sei como vai chamar!

Tenho uma exclamação na minha vida. Ganhei esse ponto que exulta, surpreende, deixa claro e enfatiza, da bondade de Deus e da torcida do meu pai.
Essa boa exclamação é o Pedro, meu filho.

Falo que a exclamação é minha mas tenho que confessar que aprendi dividí-la, porque todas as pessoas que simplesmente olham pro Pedro, exclamam também.

A verdade é que o Pedro encanta.

Olhos grandes e dóceis, generosos. Boquinha pequenininha mas de lábios carnudos. Cabelos castanhos, grossos e com poucos cachos. Ingênuo, puro. Encantadoramente meu menino. Seria bacana se ele existisse, e quase como se já soubesse que pedidos atendidos são sinais de gentileza, ele decidiu existir.

Com meu filhote aprendo todos os dias que as homenagens acontecem nos pequenos gestos, aqueles despreparados, espontâneos. Um pegar de mão preocupado se o avô está seguro, um levantar de sua brincadeira pra ajudar as irmãs guardarem os brinquedos que nem foi ele quem pegou, um carinho no rosto da gente que faz a todo momento, até dormindo...

O Pedro faz coisas que derretem a nossa razão. Como ontem, quando a Julia dormiu. Antes de dormir ela me pediu se podia levar pra cama a bonequinha Mulan. Eu disse que tudo bem, mas respondi mecanicamente porque eles pedem mil coisas ao mesmo tempo... aí quando o sono bateu eu a levei pra caminha e a boneca caiu de suas mãos. Ficou no chão perto do sofá um tempão até que o Pedro viu, na mesma hora ele parou sua brincadeira, pegou a boneca e saiu. Eu logo pensei, agora ele aproveita pra satisfazer a vontade de brincar já que a Julia não deixaria se estivesse acordada. Rápido ele voltou, e sem a boneca. E eu pensei de novo, danado escondeu pra sair encrenca amanhã. Fui atrás, entrei no quarto deles e a bonequinha tava lá, no travesseiro do ladinho da cabeça da Julia, quase como um abraço de amor. Fiquei comovida com ele, voltei pra sala e ele estava de novo à volta com seus carrinhos e heróis. Ele fez por ela, não por ele.

Com a Bia a mesma coisa. O Pedro sabe que a Bia gosta de contar histórias, então ele sempre dá a vez dele pra ela falar sem parar. Quando parece que ela acabou a carta de Caminha, ele pergunta, Bia agora é a minha vez? E ela sempre diz calma ainda não, e ele sempre espera.

E o Pedro vai ser sempre assim.

Vai fazer sem esperar troco, vai entregar pra vida alegria sem que ela tenha que devolver alegria pra ele. Mas por isso mesmo vai viver feliz.

Quando eu soube que na minha felizarda barriga de trigêmeos tinha um homenzinho no meio de duas meninas não tive dúvida, exclamei a minha alegria também. E confesso, nossas vidas não teriam a menor graça sem ele. Sem a grata presença de alguém que quer jogar bola toda hora, que sai com o pai num domingo pra ver carro, que com 3 anos e meio pára pra ver a largada da fórmula 1, que corre como o flecha, que não quer ficar dentro de loja no shopping, que faz graça na porta da escola pras menininhas, que faz xixi na tábua da privada, que prefere o giz de cera azul, que tira a cuequinha e deixa jogada no chão, que adora o homem-aranha e quer o controle da TV, que tem esses defeitinhos que todos conhecem, mas sobretudo que é um verdadeiro cavalheiro, cuidadoso e grande companheiro da gente. O meu menino!

Filho, sou tua!

24/08/2007

volver

Então eu queria poder voar, mas como não conseguia corri fazer umas asas. De tule e brocados costurei pedra a pedra por horas, e quando terminei ficou tão lindo! Olhei com orgulho e fui voar nos sonhos.

23/08/2007

memé

Memé era minha madrinha.

Bem, aqui vale um esclarecimento pra quem já leu "papagaio loro" porque lá também tenho uma madrinha, a Rosa. Só que em família católica é assim mesmo, você tem a madrinha de batismo, a de crisma e depois um monte de casamento.
Mas a Memé é a que puxa o bloco, a madrinha mais importante porque é aquela que te endossa pro mundo, a fiadora da tua boa vida, da tua devoção à Deus antes mesmo que você possa concordar. É a madrinha de batismo.
Eu sempre adorei que mamãe tenha me escolhido para entregar à Memé minha história. Fui batizada com 20 dias de vida e mesmo quando eu já era grandinha ela mantinha exatamente a aparência que as fotos desse dia a apresentavam. Uma gostosura de gente do bem, baixinha e gorduchinha.
Muito vaidosa sentava à frente da sua penteadeira de três espelhos todos os dias. Passava pó de arroz clarinho com aquela esponja de flanela amarrada com um laço, batom rosê que abria como se fosse um doce, e arrumava seus cabelos bem pretos com dois pentes de cinco pontas. Depois, corria as mãos de unhas sempre feitas atrás do perfume mais tradicional do seu tempo e de suas argolas de ouro, aí sim estava pronta para a casa. Mesmo católica como já anunciei, na companheira penteadeira, uma estatuazinha de uns 3 cm do Buda permanecia rodeado de moedas. Pensando nisso, me veio agora que se a Memé fosse homem até que podia ser o Buda, tanto fisicamente como espiritualmente..
Caminhava com dificuldade da sala para a cozinha e lá fazia belos almoços, suculentos como as boas Carmelas os fazem. Experimentava tudo e enxugava as mãos no avental que combinava com o vestido antes de lavar as colheres que tinham ido à boca. Ia do fogão para a pia um montão de vezes por conta disso. Usava uns chinelinhos chiquérrimos, ora de plumas ora de couro com furinhos em cima, e quando estava cansada sentava-se na sua poltrona azul, de costas para a porta de entrada que permanecia destrancada porque não tinha do que temer, cobria as pernas com um chale de lã e lá cochilava fazendo bico.
Todo mundo gostava da Memé porque ela era cheirosa e bondosa.
Em cima da sua cama coberta com colcha de chenil, guardava uma boneca de louça. Somente o privilégio de ser afilhada dava o direito de pegá-la no colo nas horas de visita, e mesmo assim, docemente a Memé pedia cuidado. Igual carinho tinha com o piano de madre pérola, uma caixinha de música que tocava uma valsa linda para que a bailarina de saia vermelha de veludo pudesse dançar. Um mimo da sua mãe e que só a Memé mesmo poderia ter herdado.

Já faz tempo que a Memé se foi. Eu tinha 22 anos. Recebi aquela notícia e fui ver a Memé pela última vez. Ela mantinha a doçura e a beleza de sempre. Vestidinha com todo o cuidado nas combinações, maquiadinha como todos os dias parecia até que já havia deixado tudo isso preparado. E ninguém se entristeceu além do que o momento pedia.
Hoje enquanto escrevo sobre ela surge uma saudade apertada. Um desejo de deixar bem claro meu sentimento. Sei que por mais que eu tente nunca conseguirei transmitir com tamanha fidelidade o que a Memé foi pra mim um dia, e certamente ainda é. Talvez mais importante agora que já sou dona das minhas próprias palavras do que em seu colo aos 20 dias de nascida.

Madrinha Memé, era assim que eu te chamava, o seu pianinho de madre pérola ainda tá lá na casa da mamãe pra quem quiser conhecer, tocando a mesma música que enchia nosso coração de amor. A Bia, o Pedro e a Julia já o conhecem e cuidam pra que ele continue formoso. Por você e pra você. Tenho saudades. Até sempre e um beijo da Cice.

21/08/2007

o encanto

Vinha uma garoa comum pra aquela época, mas ela nem percebeu. Já tinha tudo na mente desde a hora que recebera o recado no dia anterior. Ia usar sem receio aquele vestido reservado para uma ocasião assim, era rosa claro e a saia capaz de se movimentar mesmo num dia sem vento. Correu para o guarda-roupas que carregava há anos um espelho na porta sem muito uso, ninguém ali tinha motivo já há algum tempo de se olhar e dançar na sua frente. Só que agora ela tinha. Esperou recatadamente por isso como sua avó tinha lhe ensinado. Ficava na janela florida, que tratava cuidadosamente todos os dias com água limpa, olhando o movimento, despreocupada com a preocupação de ser vista. Mas não podia ser qualquer visão, haveria de ser um encontro mágico, quem sabe um bonito moço de cabelos escuros.. Era o seu desejo. Dia-a-dia ela repetia a cantoria ao regar as flores, e tal ingenuidade encontrou sua resposta. Há sem dúvida o amor no ar, aquele que não precisa de muitas palavras, que um bom dia basta pra fazer o coração disparar e o próximo movimento ser anunciado. Depois de duas vezes os 7 dias da semana, ela sucumbiu ao convite de olhares e desceu pela escadaria. Ganhou não uma flor mas uma muda da flor mais querida pra plantar junto às suas. Exultou a educação e a intimidade que a distância proporcionara. Como ele havia percebido seu gosto se nunca sequer trocaram mais que quatro palavras? Porque era assim, ela corria pra ver ele chegar caminhando, e depois no final do dia, esperá-lo retornar. E ele não falhava. Nem ela.
Naquele momento em que recebeu a muda da flor soube que nada mais poderia dar errado, e sorriu uma luz que ofuscou o dia claro, diferente de hoje e que pouco importava.
Mesmo quando ele não veio o receio não lhe apertou a alma, ficou aguardando o que seria na certeza dos amantes. Foi quando o recado chegou. Uma cartinha singela dizendo te espero, venha como todos os dias te vejo, linda e leve. E agora estava na euforia do batom cor de boca e do esmalte transparente, vestindo sua reserva e calçando as sapatilhas de laço. Virou a quadra e o enxergou, de costas, de camisa clara, cumpridor do afeto que trocavam. Diminuiu o passo e foi ter com ele a primeira de eternas conversas de amor.

18/08/2007

autópsia

Ele abaixou em busca do couro gasto, parecia incrível mas a casa fazia de propósito ao enfiar o pisante por entre tantas tralhas, e sempre. Calçou e fez o caminho desenhado pelos anos agora de dia. Era a única diferença. Sentou-se naquela cadeira puída, que o fez em horas extras por muitos finais de semana insistente por trocar o tecido, e ela desafiadora continuava ali descorada. Até aquele momento o único presente na vida de pretéritos era o jornal que abriu na página de futebol. Não teve jogo do seu time, então nada interessou. Pelas grossas lentes embaçadas até tentou ver outro assunto, mas nunca soube o que é curiosidade. Então os pensamentos chegaram junto com o barulho das crianças da rua e ele ficou de frente com a alegria decepcionante pela primeira vez. Por anos escolheu o que não escolheria, bradou entre aquelas paredes emprestadas brigas e receios, viveu cada minuto cuidando para que tudo desse certo dentro de uma caixa de erros, e agora estava lá. Foi levado pela dúvida até a janela e o pó que subia dos pés da bola de capotão lá de fora, se misturava com as risadas daqueles pequenos que um dia poderiam estar como ele. Que jeito não, se o lugar convidava? se tudo exigia assim? Por um instante da vida toda teve um sentimento. Dó de si mesmo por acreditar em tantas mentiras contadas por cada canto do mundo. Tentou ter coragem de dizer isso pela janela, alguns ouviriam e mudariam seu curso, mas o peso do tempo, habituado a ser desse jeito, calou o único sorriso possível. Então, voltou ao jornal de ontem antes que ele fosse embrulhar as frutas porque tinha alguma coisa do seu time, e num último lampejo ele viu que por entre as lentes grossas jamais enxergou o hoje. No ontem via o amanhã, e agora que era amanhã não enxergava mais nada. Nessa conclusão, fechou as páginas do momento e arrastou os chinelos até a cama esperando.

17/08/2007

papagaio loro

No carro pela manhã ouvi minha Marisa cantando ...ele tá de olho na boutique dela... uma música que era cantanda pelo Genival Lacerda quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, sei lá. Era o Genival e o Loro que cantavam essa música na época. E o Loro era o papagaio da minha madrinha.

Marisa canta já faz tempo, mas hoje ouvi com ouvidos de infância. Me vi pequenininha olhando pra gaiola que ficava em cima da máquina de lavar roupas. E ele lá.

Papagaio é um bicho engraçado a começar porque é verde, depois tem dois olhos do lado da cabeça não na frente como os da gente, e acho que por causa disso não pára no puleiro, fica mexendo pra lá e pra cá, buscando enxergar tudo.

O Loro cantava essa música inteirinha e quando acabava pedia pra gente cantar e aí dançava. Chamava o Popi, um pequinês que se achava esperto, o dia inteiro. E o dia inteiro o melhor amigo do homem procurava por alguém que era o Loro. Que ótimo.
Às 6 da matina o Loro chamava a Rosa, a madrinha, que tinha que levantar pra dar café pra ele senão nem ela nem os vizinhos mais dormiam. Repetia-se tal gritaria à tarde, 5 como o chá da rainha, porque o Loro queria que cubrisse a gaiola pra ele dormir.

Ir na casa dela era ficar horas olhando aquela gaiola. Junto com um monte de vasos de plantas ficava o Loro, elas e eu. E o Loro era meu filho, o Popi era visita, e os vasos todos os lugares da minha imaginação.

Um dia minha madrinha mudou. A vida foi dura pra ela e teve que ir pra um quarto e cozinha com quintal junto com outras famílias. O Loro falava muito, fazia barulho, os cachorros latiam e a história mudou junto. A Rosa, com os olhos inchados de lágrimas, teve que dar o Loro. Deu pra um vizinho lá da casa de antes, que tinha um sitio e prometeu cuidar dele. Foram anos, muitos mesmo, de conversa com aquele papagaio. Dela, minha, dos meus irmãos. Uma perda que deixou uma parte feliz da minha vida de criança meio que sem resposta. Não entendia bem porque ele foi.

Hoje, lá com a Marisa, entendi tudo. Ele veio pra eu lembrar nesse dia de como minha infância foi genial, e ele foi pra que a gente entendesse que a vida passa mas as lembranças enchem nosso coração pra sempre.

Suspiro pela Rosa e pelo Loro. Agradeço pelo Genival e pela Marisa.

16/08/2007

as sombras ou ainda, assombras

Porque será que todo mundo quer saber do outro quando se tem tanto a querer saber de si mesmo? Sócrates já anunciou que não sabemos de nada, então que diabos os não estudiosos e nem sequer estudantes resolvem descobrir o que não existe? Junto dessa obstinação ainda decidem o destino da história que não escreveram, que colaram o contexto, adulterando seu fim numa tentativa de adivinhação.
Medo, inveja, falta do que fazer, insegurança, culpa? Que será?
Ando me divertindo à beça da cara dos assombrados pelas suas próprias sombras. Diariamente varro as tralhas que querem atrapalhar. O livro já está escrito. Com seu final imutável e desenhado pelos seus próprios autores ele vai às prateleiras.
Agradeço por fim dormir bem, e ter apenas a minha própria vida pra cuidar.

15/08/2007

mangalô 3 vezes

Um dia igual ao de ontem mas já poderia ser sentido estranhamente diferente. Se prestasse atenção teria blindado o curso de tudo que estaria por vir.
O carro quebrado no dia seguinte do seguro vencido, que nunca vence, mas a corretora esqueceu de avisar, que nunca esquece. E eu, que nunca me antecipei, lamento minha própria entrega à sorte. O carro que foi negociado pra venda, praticamente na rota de outro destino, que tinha um destino pra hoje e não cumpriu. E agora suspende o novo por mais alguns dias. Quantos? Só os deuses da concessionária sabem. Mas porque eles? É que o guincho foi guinchado e não veio a tempo de levar no Hiroshi (ma). Depois, o completamente improvável à prova. Como algo que não tinha como acontecer aconteceu? Não, não falo mais do carro. Porque, se era tão simples? Por conta de esconderijos a verdade sempre vem à tona. Mas com ela, mesmo sabendo que é melhor agora, vem os outros "nós" dessa corrente. Decidir quem pode puxar ou quem segura o cordão é o primeiro ponto estreito. Aí, cólicas. Cólicas?? Nunca existem, porque hoje? 24 anos depois?
Acho que acabou. Não muito, acabou a oportunidade de fechamento porque o improvável realmente se provou. Não é possível, falta um berro ardido, mas antes que ele viesse, uma luz:
A vida não é só coisa boa e feliz. Paciência e destreza são as ordens pra um dia desses.
Então, até amanhã.

madrugada minha

Ouço o som dos meus próprios passos. Todos os dias repito os gestos que me dão uma alegria que chega a doer.
Venho pra este lado da casa sento desconfortavelmente porque nem apoio para as costas, e fico no velho banco branco que já mudou comigo nove vezes. Ereta, postura que não tenho com o dia claro.
Tudo vai se confortando.
Depois é fácil, um transe, e passo a contemplar o barulho do silêncio.

É a minha madrugada, e junto dela o momento do poder absoluto perante o mundo. Tá tudo aqui.

Por trás das portas que não rangem essa hora, posso ouvir o ressonar de quatro vidas. Esse som que o silêncio me dá é perfeito. Dele discorre e escorrem muitos outros. O trem que ainda passa por esses lados e me leva pra tais momentos. Ecos e vozes indecifráveis são presentes da madrugada.
Viro-me e me escuto de novo, por dentro, pelos ossos que estalam por estarem retos. Posso ouvir o que só ouviria de olhos fechados.
Sou tudo sem nada. De pijamas, como nas imaginações. Que bom.

Nesse escuro silêncio eu leio e escrevo e ainda falo. Falo tudo no caderno de margem vermelha porque gosto dele. Falo o que virá e o que foi. À mão. Depois, ouço o que me diz que eu disse, discordo em boa parte e então, fico apenas.
Não descanso se não sentir o bônus da noite.

Ah! madrugada, você bem sabe que sempre te gostei. Fui criada pra você, pela boemia e pela contemplação.
O tempo já me deu a boemia e agora entrego pra ele a tua espera.

14/08/2007

nem mais e nem menos

Colocar os esforços na medida como devem ser. Nem mais e nem menos. Porque mais ou menos significam fora do ponto. Estragam tudo.
Parece simples, mas tente por um minuto calibrar suas intensidades, você vai encontrar invariavelmente grandes dificuldades, e mesmo que você finja que não são, só por esse fato já foram.
No final, acredito que somos datados para querer algo que na verdade não era preciso, mas por isso mesmo não bastava que se admitisse. As pessoas adoram estar complexas como se o simples fosse envergonhador, e para piorar fogem da vergonha olhando pro outro e atribuem por ali as suas culpas. Uma pena. Eu ultimamente rezo para conseguir morrer de vergonha perante os outros.

10/08/2007

trifrases

...sabe mamãe quando eu era "Egita" eu andava de camelo! (Bia Galloro)

...olha, no escuro a gente não tem cara!? (Bia Galloro)

...Cris vamos brincar de casinha? você vai ser babá também tá? (Julia Galloro)

...hoje na escola eu subi de teia na cadeira da Tia Lygia. (Pedro Galloro)

...eu não quero assistir mais os jogos americanos de corrida papai. Põe no discovery por favor... (Bia Galloro)

...hoje eu vou dormir só depois que eu acordar (Pedro Galloro)

...olha todo mundo pra cá que eu vou virar uma calhambota (Julia Galloro)

mãe é mãe (fã-clube)

Filha tenho outra rotina. Abrir todo dia o "teu sei lá o que", mas que é lindo. Aguardo sempre o próximo.
Me encho de emoções, de orgulho e de tudo
De quem é a poesia do dia 06.
Não me diga que é tua se não morro.
Coisa linda
Não dá pra continuar porque o papai já saiu e está chamando pra levar os pitucos
Bjs
Mama

3 em 1

Lá em casa é assim: A Bia é a cabeça, a Julia o corpo e o Pedro o coração.

09/08/2007

simples assim

Domingo dia 5 foi dia de aniversário. 10h30 da manhã e muitos amigos juntos. Foi dia de festa de aniversário, e uma festa tão linda que aqueceu minhas melhores lembranças.

Tinha o essencial. Vela que apaga num assopro só, bexigas coloridas, tinha chapéuzinho de papelão amarelo e rosa, resta 1 de lembrancinha. Tinha família sentada em sofá, que veio de longe, da terra do santo. Tinha os primos, os amigos de todo dia e os de vez em quando, e também aqueles que já foram de todo dia e hoje são de vez em quando. Máquinas de fotografia cada um tinha a sua e registrava a alegria a seu modo. Tinha a celebração do céu em lágrimas de felicidade, e até o vento queria dar o seu alô. Tinha brigadeiro e pão de queijo. Um monte de livrinhos espalhados despreocupados se alguém pudesse estragá-los, e por isso ninguém estragou. Tinha os brinquedos da casa, que desceram sozinhos para o salão durante a madrugada. Tinha pula-pula e amor.

Ah, também tinha uma flor vermelha na lapela. Sofisticadamente simples, aquela florzinha circulava pelos nossos olhos e fazia a gente derreter até os joelhos para alcançar a grandeza daquele tamanho todo de gente.

Na hora do parabéns tinham vozes e palmas... lembram das palmas nos parabéns? Então, tinha também. E junto delas tinha uma graça. 3 mulheres fortes e um homem sábio. Uma paisagem.

As vozes simples adormeciam os pensamentos corriqueiros e a sensação que se tinha era que tudo podia parar por ali.

No domingo dia 5 foi dia de aniversário. 10h30 da manhã. Fui convidada pra festa e ganhei o presente.

07/08/2007

doce julia

Julia é minha filha mais nova. É engraçado dizer isso quando se tem trigêmeos, mas foi ela quem nasceu 4 minutos depois da Bia e 2 minutos depois do Pedro, então pra mim é a mais nova. É da Julia também o pior lugar na minha barriga, foi ela que ficou no chamado "puxadinho" durante as 33 semanas de gestação, embaixo das costelas e espremidinha entre o Pedro e o meu peito.

Por isso nasceu menor. Bem pequenininha, um sapinho cabeludo de 1,620 kg.

Lembro de olhar pra ela dentro da encubadeira e sussurar que tudo ficaria bem. Ela me olhava e aquele olhar me dizia a força que tinha, que o fato de estar ali era apenas pra cumprir com o capricho dos médicos. E eu acreditava cada vez mais nisso quando a pegava no colo. Ela ficava encaixadinha no meu peito e seus pezinhos nem alcançavam o começo da minha barriga, mas conseguia ganhar peso, mamar e respirar mais rápido do que os irmãos e todos os bebezões que andavam por ali.

O médico, especialista trigemelar, já me dizia nas consultas que um dos três seria pequenininho porque o útero é como um copo de milk shake com 3 canudos, um sempre toma menos... Mas em compensação garantia também que é desse pequenino a personalidade mais forte, já que aprendeu na prática que na vida nada vem fácil, desde a barriga. Portanto saia de baixo, esse pequeno ser não iria levar desaforo pra casa.

Hoje, quase 4 anos depois, minha pequena Tutu que ficava poderosamente na sua macro encubadeira de barriga pra baixo, tá grande, inteligente, forte e com muito do que o Dr. Eduardo profetizou.

A Julia é uma fortaleza de olhar doce.
Nasceu pra cuidar da gente. Zelar pra que tudo fique bem, principalmente com seus irmãos.

Um dia a professora me chamou na escola pra dizer que ela mal brinca no recreio porque fica cuidando deles, uma verdadeira guardiã. Nas festas dos amigos a mesma coisa. Em casa ela também cuida, mas ao seu jeito. Bravo, decidido. No seu ambiente de domínio ela não perdoa, avança se as coisas não estão do seu agrado, mas atreva-se a olhar feio pra um dos dois que você vai conhecer a fúria da Tuca. Ela faz o tipo, só eu posso bater neles...

A Julia também é tímida, desconfiada. Entendo que isso ainda é reflexo da gestação, porque imagine você ficar escondida e tentando sobreviver por 7 meses e meio...

Mas, ao mesmo tempo, sua doçura cria lances como o de ontem, ela liga pro meu celular pra dizer que está com tanta saudades que a barriga tá doendo. Só que se perceber que eu amoleci ela diz que não era pra ter me contado, que era segredo. De todas as belezas que ela me presenteia diariamente, tem uma que eu prefiro. O melhor da minha Tutu é que é dela as gargalhadas mais sinceras, espontâneas e contagiantes.

À noite, enquanto rezo, fico pensando nela e pedindo pra que Na Senhora me ajude a criá-la sem receios, sem amarras com a responsabilidade. Livre. Mas ao mesmo tempo sei que sua personalidade já se desenhou e que invariavelmente vai viver as suas verdades.

E então Na Senhora me responde. Ela fala comigo através dos olhos da própria Julia, que da mesma forma como me olhava na encubadeira, me garantem que as 33 semanas que viveu na minha barriga ensinaram que por mais difícil que possa ser os seus espaços na vida, ela vai tirar de letra. Gargalhando.

Então eu sorrio, encho meu coração de paz, vou até a sua cama, cubro a minha caçula e continuo rezando feliz.

palhetas - por flávio galloro

Eu no cliente;
Telefone toca;
“Pedro Comobra”
Oi Pai;
Flavio??
Oi Pai;
Cê não tem uma palheta?
Palheta? Que é isso?
Aquela coisa de tocar violão...
Pra que você quer isso?
É que eu me inscrevi na Unicid nuns cursos de quem não enxerga...sabe? Cegos?
Sei....
Me inscrevi em informática, música.....e hoje me chamaram pras aulas....é um cego que dá aula, e pediu pra levar uma fita cassete e uma palheta....
Acho que tenho alguma em casa, vou ver se acho e te levo.
Ta bom filho....obrigado.

Fiquei pensando que diabos esses cegos vão fazer com palhetas....quando elas caem no chão até a gente que enxerga bem tem dificuldades de encontrar....pra eles vai ser o final do curso....

06/08/2007

ser e estar

Como é fácil ser feliz.

Basta um bom dia igual ao de sempre,
um leve esbarrão de gente.
Um olhar que você conhece,
uma palavra de todos os dias, quase como uma prece.

Basta o telefone tocar e surgir uma pergunta sem nexo, um pretexto.
Basta que se ouça um texto,
Que já foi lido,
e no final sentir-se surpreendido.

Simplesmente basta um apelido ser pronunciado,
Deixar um pedaço de bombocado.
Basta o fato de dividir um segredo,
de fingir um pouquinho de medo.

Basta um suspiro no escuro pra saber se está acordado.
A troca de olhares de lado.
O cheiro do perfume no ar,
um jeito de rodopiar.

Basta que quando você apareça,
um breve "oi" te envaideça.
Pode ser amigo, amor ou família
Segue-se a mesma trilha.

Pra estar feliz precisa mais,
Mas pra ser feliz bastam esses sinais.

04/08/2007

conto(a) de amor

44 anos de casados, 3 filhos, 6 netos por enquanto, 2 faculdades completas, 800 cursos de noivos ministrados, mais uns 800 de casais, e uns 1000 de batismo, todos os domingos juntos na missa das 9h30 desde 1963. 2 casas próprias e 1 terreno em Itanhaém que até agora ninguém sabe onde é.

1 cirurgia do estômago, 2 de coração, diálise 3 vezes por semana, 6 vezes por semana para levar e buscar na diálise. Almoço às 12h30 porque mais tarde o papai não pode, jantar às 19h em dias comuns, 20h45 em dias de diálise. Atualmente 1,5 pedaços de pizza aos sábados pra cada um. Antigamente 6 pra um 2,5 pra outro. 500 tipos de remédios diferentes.

3 selinhos invariavelmente quando chegam da rua, nos raros momentos em que não estão juntos.

66 anos.
64 anos.

6 para os 50 anos de casados, as Bodas de Ouro.

Todos esses números resumem a vida dos meus pais, mas não conseguem nem de perto chegar próximo a uma conta que estime o amor que existe entre esses dois.
Arrisco qualquer agrupamento de zeros e mais zeros seguidos do 9, e mesmo assim não faço sombra pro que poderia ser uma escala do amor deles.

Sou filha mas não sou suspeita, é de dar inveja. Não, não imaginem que esse amor fica acomodado pelos contos de fada. Muita coisa na vida deles não foi cor-de-rosa, e ainda não é. Tem briga nesse meio, 4 feias que eu me lembro e umas 500 por dia, daquelas de dar risada. Mas não abala, não arranha sequer a estrutura que eles firmaram no dia 08 de junho.

Outro dia tocou 3 vezes o meu celular e eu não pude atender. Insistiram, olhei era meu pai. Atendi no 2 toque, interrompendo a reunião, porque temos levado alguns sustos depois da explosão de consequências que a diabetes lhe causou.

-...Alô?!
-Oi filha.
-Oi pá...
-Viu, tua mãe e eu estamos pensando na nossa festa.
-Que festa?
-A de Bodas de Ouro.
-Quê?
-Bodas de Ouro cáspita, não sabe o que é isso?
-Lógico que sei, mas quando é essa festa?
-Daqui há 6 anos. Vi com ela da gente ir guardando uns 200 reais por mês até lá. Vc que mexe com festa acha que vai dar pra gente fazer um festão quando chegar a hora?

Que lindo. A verdadeira despreocupação com o tempo, com as coisas que não são boas. O olhar na alegria que eles me ensinaram a ter, presente e pulsante naquela hora. Encheu meu dia de esperança e meus olhos de lágrimas.

-Ah pai, acho que dá pra ter alguma coisa... mas falta tanto, a gente vê na época uma vaquinha e faz a festa.
-Que vaquinha, que nada, você tem três filhos e é neles que você tem que pensar, teus irmãos também. Eu e a mamãe damos conta..

E eu sei que dão porque sempre foi assim. Meus exemplos, meus amores.
Aqui registro 100% de amor e mais 100% de dedicação sábia, sem medo dos "nãos" que a vida solicita.

Mamãe e Papai, obrigada. Nota 10 pra vocês. E que venha os 50 anos dessa união eterna.

03/08/2007

crazy dos 40

Quem imagina que há de se viver um caos perto dos 40, se engana. Estar por perto da tal idade da loba (existe isso no feminino?) é muito gostoso. Você pode olhar pra trás e também pra frente, os 40 são literalmente o meio do caminho.

A média de vida dos brasileiros é de 71,3 anos. fonte: IBGE 2003, a mais atualizada Brasil!!...

Como pra trás é passado e pra frente só Deus sabe, os 40 te dão isso também, a sabedoria de viver agora. Vale pela clareza, pela consciência de mente e corpo e pelo enfrentamento das verdades. Só com lipo a barriga dos 20, só com lupo a perna lisinha, só com lupa o receio de ser feliz.

Sabe-se ser feliz aos 40. Isso é mais e melhor do que apenas ser feliz.

Então corra pra chegar logo. Experimente o vigor da fase. Aliás não corra não, porque cada fase tem a sua magia e assim que deve ser.

Espere apenas, e verá.

02/08/2007

relicário

... eu também trocaria a eternidade por essa noite.

01/08/2007

pé de meia

Filha, põe a meia. Não quero. Como não quero? põe a meia porque tá frio. Mas eu não tô com frio. Mas não é o caso de estar ou não com frio, tá frio e pronto. Depois eu ponho. Não, põe agora! Eu vou por depois... Olha só, teu pé tá gelado. Tá gelado porque eu tô com calor.. Mas que calor, tá oito graus lá fora, põe e não vou falar de novo. Então tá. Tá o quê? Você disse que não vai falar de novo... Escuta, você quer ficar doente? (Silêncio) Só que não é essa meia que eu quero, eu não gosto dessa. Então vem ver qual você quer. Aqui não tem nenhuma. Como não tem, tem oitocentos tipos de meia nessa gaveta... Mas a que eu quero não tá aí.... Santo Deus que difícil por uma meia no pé. Então mamãe é difícil, posso ficar sem?

Moral da história: Quando não se pode com eles junte-se a eles, ou então, compre pantufas.

guardadinho

eu sou

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Gosto de boniteza, de arrumação, da moda dos anos 30. De margaridas e pérolas verdadeiras. Gosto da noite, de gente dando risada, do sabor colorido de um prato de feijoada. Gosto de sair e de mudar, gosto de família, de amigos e com eles estar. Gosto de dança e de criança, e gosto muito, muito do mar.