É quando o que te estorvava, implicava assim a toda hora, cutucava o seu sossego, enrolava o seu caldo, se desmancha, some como sopro no ar, é que você sente mesmo o que é liberdade.
Aquele peso com papéis em baixo, que não serve pra nada, que se ganhou quando se perdeu como prêmio de consolação, que você finalmente manda embora, te alivia as costas, sapeca o ranço, desempaca a carroça.
Ô coisa boa, ô delícia de sensação. Tipo, a mosca caiu na sua sopa e para celebrar então, você vai traçar um bom bife de picanha.
Fruta como botão, pretinha, redonda. Alegria dos passarinhos da árvore da casa do Seu Lauro. Feito os olhos, os meus. Eu vejo conto e invento. Eu por aqui me apresento.
20/05/2013
06/05/2013
O "i" de Maria*
Ah, ainda bem que ela está por aqui, doando seu riso solto, que aprendeu a ser, meio que aos solavancos de tanta rigidez e egoísmo que sempre a cercaram. Ah, ainda bem que ela resistiu e sorriu mesmo assim, sem supor que tanto doía, e que aprendeu também alguma defesa para se assegurar de esperança, embora sem saber como iria se equilibrar na bicicleta da vida. Ah, ainda bem que ela é assim, tão dedicada, concentrada, resignada. Estudiosa e teimosa, fuçadora, persistente. Filha de quem é. Aquela que termina as tarefas, que não sabe o que é preguiça. Ah, ainda bem que ela foi mãe, e soube ser. E me fez ver o quanto é transparente o verbo amar. Ah, ainda bem que ela é minha, que quando eu grito seu querer, já está comigo há tempos. Que sabe de tudo, de olhar no guia de ruas até recorrer às duras penas da vida. Ah, que bom que ela toca, canta, tem música na alma. Que bom que é morena, que tem pele de índia, que força a caminhada nos pés que lhe avisam a hora de parar. Que sabe esperar, que supera, que ama o mar. Ah, que bom que eu sou dela, que bom que sempre fui. Que bom que eu me encosto no seu colo, e ganho carinho e posso contar tudo e ouvir tudo também. Que bom que ela é lutadora, é amiga da fé, é um anjo que lê para todos os ouvidos e que também cuida com seus olhos atentos. Que bom que tem raiva às vezes, gênio forte, olhar de fera. Ah, ainda bem que ela protege, convive, ora, pede, recebe. Que bom que é assim. Mãe e avó. Que bom o seu piano, o seu acordeon, a cor do seu batom que todas às vezes some da boca, e o seu cabelo curto, preto, que já foi mais, e já foi longo no corpo violão que encantou tantos, sobretudo um. Que bom que eu sei disso tudo. Que bom que a ouço todos os dias, e que bom que ela fala desse jeito, e escreve, e é culta, amiga, querida. Que bom que o "i" de Maria começa e termina seu nome. Ah, ainda bem que ela é minha. Ainda bem que ela é Mãe.
Ah, meu Deus, ainda bem!
*para Ivani, minha mãe. Com todo o meu amor.
Ah, meu Deus, ainda bem!
*para Ivani, minha mãe. Com todo o meu amor.
03/05/2013
descarrego
Me deixe aquele que sopra em meus ouvidos, que não me encara ou cala. Que ao menos finja um disfarce, emudeça, entrelace. Me deixe o covarde, o fujão, aquele com alma perdida, encostado nas esquinas do pensamento, vago, atolado em pranto enlamaçado. Me deixe o médio, o tédio, o morno, o rosto de olheiras fundas, a cara de bunda. Prefiro que não me prefira, que ignore minha existência, que corra em círculos e caia por aí e eu nem veja. Me deixe o que deseja o meu não rir. Prefiro o só do que viver na obrigação de um senão, com tudo, em vão. Prefiro assumir, resumir. Que se esvai assim, o pobre de mim.
27/04/2013
se houver inverno
Pela fresta da janela ele entra meio que sem vergonha. Acorda a gente pela ilusão de que as cobertas quentinhas não estarão à sua altura. Um sábio, porque percebe muito bem o poder de sedução que cortam seus raios coloridos e confundem nossa visão. Ali, onde ele pousa, a gente senta buscando o aconchego que vem acompanhado de uma xícara de café. Seu calor nem é assim assim, mas o efeito que produz estar embascado com seus reflexos, acomoda os pensamentos que vão longe e se misturam em meio a bolas coloridas, lilases, brancas também, quando o piscar dos olhos se fecham. O sol de inverno, o solzinho, que assim como a vida, em meio ao gélido tormento que todos temos que passar um dia, vem acalorar um pouco o movimento que a terra faz. E desse jeitinho nos dá uma luz literal, uma cena boa, de que sempre haverá algum lugar mais quente. Sim, é sim, porque mesmo que os trópicos fiquem no mesmo ponto, teimosos nas suas estações, basta que a gente levante, que o movimento seja feito e que sigamos para outros cantos, ao encontro de novos calores e outras xícaras de café.
02/04/2013
emaranhado
"Haja hoje para tanto ontem", disse Ana Paula redizendo Leminski. Ana parecia querer expressar sua alegria por um feriado em família naquele dia de branco, e Leminski devia ter seu propósito que eu posso até imaginar, mas não ouso. Eu aproveito a frase tão rica pra dizer que, sempre tive dificuldade em desenroscar cordões de ouro, achar o começo do nó, parar para me concentrar nesse emaranhado. E é assim que ainda sinto, quando hoje, leio, acho, pesquiso e às vezes até não encontro algo. Tanta coisa ao meu bel prazer que nem sei por onde começo. Entro em livrarias e em livros, olho pelas bancas das lojas de atacado, das chiques, clico em sites, em blogs, em redes e dali sempre tem outro ponto, outro item e nele algum hífen que te leva para um caminho anterior, que puxa um antes e outro assim, antes do antes ainda, e tanto e tanto, que nem lembro mais o que realmente eu queria saber. Ao mesmo tempo que isso sufoca, intriga e abastece a mente e a alma de novidades atrás do que se, na verdade, são velhas conhecidas que demoramos 44 anos para entender. De poemas a imagens, de homens que marcaram uma época a mulheres frutas, de penicilinas a pornochanchadas, de que nada é tão novidade assim e nem tudo já tão sabido. De sins e nãos e talvez.
08/03/2013
Maria Luiza Capassi Padula
A bivó na minha infância, vivia sentada numa cadeira de balanço, com um sueter azul royal, cabelos brancos penteados de lado, portadora de cegueira pela idade e mãos trêmulas pelo parkinson. Mesmo sob essa figura, eu com meus 6 ou 7 anos, nunca a enxerguei fragilizada. Aliás, a gente chegava lá para vê-la, não como uma visita, mas como que para dar a satisfação da semana, sem que ela nunca tivesse pedido. O tempo passou e eu quis saber mais sobre a bivó, porque a morte enterra o corpo, mas desenterra as curiosidades e as lembranças. Perguntas como: Quem era a amiga que posava elegantemente ao seu lado no retrato tirado em 1935, mais ou menos? Como ela tinha uma loja num tempo que mulher não trabalhava? Com quantos anos ela casou com o meu bisavô e porque ela casou com ele, se eles eram tão diferentes? Como ela tinha dinheiro e ousadia pra viajar sozinha, de férias? e como fazia para enfrentar todos os limites sociais impostos às mulheres... E as respostas vieram. A Véva era uma grande companheira numa época em que as mulheres mal podiam abrir as janelas, quanto mais os olhos ou a boca para serem amigas. Parceiras de ideais e diversão, numa amizade fiel e da vida toda, e quem sabe mais o que... Dona Maria Luiza casou tão nova, porque era assim naquele tempo. Com o casca grossa do meu bivô, porque assim era também, mas nunca deixou as coisas por isso mesmo. Era virginiana e resolvida. Mãe da vovó Concheta (que perdeu uma grande oportunidade de seguí-la em pensamento). Era uma mulher de fibra, que começou um negócio vendendo roupas para fora, de casa em casa, e fingia pro seu Padula fazer o que ele mandava. Foi ela, ela! não eles, quem teve o primeiro telefone do bairro, que administrava os filhos e o trabalho, que enfrentava o meu bisavô e suas ignorâncias com inteligência e porrada, quando era preciso - e de frente hein, nada de esperar o cara dormir. Tipo UFC mesmo. Uma mulher que ultrapassou os limites sociais porque tinha coragem e coração liberto. Que abriu seu próprio negócio na luta, na habilidade de gestão e de liderança (uma loja de aviamentos linda, linda). Que tirava férias e usufruia do dinheiro, gastando nos hotéis mais caros das cidades que conheceu, com os netos e quem a acompanhasse, porque ela ia. Que se amava primeiro e amava quem quisesse o seu amor. E quem não quisesse, pra ela, ó...
A minha bisavó foi uma mulher destemida. Uma italiana vaidosa e firme, que não ligava para as convenções. Talvez hoje ela dissesse, "belaroba esse dia", mas é por causa de pessoas como ela, que o dia vale as homenagens.
Bivó, eu acho que carrego um tico-tico de você. Mamãe ficou com boa parte, a Lu com outra, inclusive o seu nome, mas eu tenho uns tiques teus.
Que bom!
8 de março - Dia Internacional das Mulheres, como a bivó.
A minha bisavó foi uma mulher destemida. Uma italiana vaidosa e firme, que não ligava para as convenções. Talvez hoje ela dissesse, "belaroba esse dia", mas é por causa de pessoas como ela, que o dia vale as homenagens.
Bivó, eu acho que carrego um tico-tico de você. Mamãe ficou com boa parte, a Lu com outra, inclusive o seu nome, mas eu tenho uns tiques teus.
Que bom!
8 de março - Dia Internacional das Mulheres, como a bivó.
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eu sou
- Cice Galoro
- Gosto de boniteza, de arrumação, da moda dos anos 30. De margaridas e pérolas verdadeiras. Gosto da noite, de gente dando risada, do colorido de um prato de feijoada. Gosto de sair e de mudar, gosto de família, de amigos e com eles estar. Gosto de dança e de criança, e gosto muito, muito do mar.