Demorei muito tempo pra perceber na minha pele qual era a sensação mais difícil de ser ultrapassada. É que eu nunca fui lá uma pessoa muito fácil. Alterava meu humor a cada menção de ameaça, vivia perseguida de risos ou lágrimas e sempre tensa. A balança da minha espécie ora ia ora vinha, e com ela os meus amores e as minhas dores. Fui sempre de chorar alto e dar gargalhadas de ecos. Expus às escondidas meus medos e meus algozes. Tive ódio, inveja, paixão derradeira, amor que dói o peito. Pude levitar, voar pelas imagens, alcançar a sublime sensação de felicidade. Lembro dela e sinto gosto de pera doce na boca. Fiz discurso, calei e saí sem explicar. Fiquei envergonhada, nua, drasticamente paralisada. Atacava mamona pra acertar a cara dos outros. Chutei pedra, bati porta, dei no peito de alguns. Forte de doer, mas dor mesmo foram ditas. Soltei amargas, duras, bravas. Palavras também livres, ternas, românticas e solidárias. Enfrentei mundos e fundos por aquilo que tinha no dia e virei as costas depois. Esqueci e Lembrei. Vivi.
Agora me resta a espera. O saldo. Perdões e Desculpas. Não tenho nenhum nem outro, mas temo os dois. Compaixão pra quem viveu e assim foi.
Fruta como botão, pretinha, redonda. Alegria dos passarinhos da árvore da casa do Seu Lauro. Feito os olhos, os meus. Eu vejo conto e invento. Eu por aqui me apresento.
28/10/2008
27/10/2008
mãos ao alto
Detesto ser refém, mas quem não é? Há quem pense ficar imune a qualquer comando, só que essa sensação não passa de um segundo. Tenho ultimamente olhado tudo em volta, os olhos dos outros, um ir e vir preocupado com qualquer coisa. Será que tá certo, errado, saudável, doente? falo bem?, bonito?, vão gostar, odiar? e as calças? tão largas demais? curtas, no clima? assustam? Eu gosto mesmo? na moda? fazem parte do mundo dos "formadores de opinião"? Ah, essa é boa... os formadores de opinião. Quer coisa mais triste pra disparar reféns por aí? Fico tão de saco cheio de mim e dos outros por conta disso, que chego a pensar em sair de venda nos olhos, pra resistir bravamente não ficar vendida. Num momento ilustre de aptdão para refém, comprei revista famosa, procurando ali imune e neutra, olha que loucura. Aí, nem nada mas tudo do mundo bailavam por aquelas páginas escritas por formadores de opinião, que te informam do que sequer você saberá pra quê, e que final, se tem. Meramente te informam de coisas. Porque pra toda aquela informação de uns, ali simplesmente divulgada, os muitos vão no curso, e solução mesmo? Aliás, divulgar é fácil. Maldita hora que desisti da faculdade de jornalismo. Tem sim linhas que se salvam e te salvam. Mas no final da leitura caí na gargalhada, ri da minha própria cara e da cara de mais um milhão e meio de negos. Só que amanhã volto na banca, fazer o quê? Reféns uni-vos. Por fim descobri uma nova à beira dos 40 anos: saco cheio mesmo eu tenho de quem tem certeza que não é atingido, que dispara frases chiques, tiradas de notas de esclarecimentos e leva pela vida toda os outros no bico. Xô pra lá. Sai de mim, a vida dá o troco em alguma hora, e que cada um consiga rir da sua própria cara.
23/10/2008
gente boa
Gosto de ficar ouvindo coisa boa. Fico horas num bom papo, um tempão admirando quem respeita aquilo que tem que fazer. Meu maior gosto nem é o conteúdo dos assuntos, mas sim como eles vão chegando na boca das pessoas, o comportamento físico por conta disso, os passos que dão, o quanto perceberam antes quem estará ouvindo, a maneira de lidar com os imprevistos, o jeito de lidar com a informação, a inserção de quem não está sendo visto, mas também faz parte do jogo. Os meandros.
Oratória na minha simples visão é isso. Chegar aonde se quer pelo respeito. Tirar risos das pessoas durante a conversa com elas, e assobios depois.
Ontem assisti o Rodrigo Leão num evento. Fui lá pra isso nesse dia. Sabia que vinha coisa boa porque do jeito que ele é chato e crítico (pensa que ele passa gel de limpeza na mão pra pegar a bisnaguinha com requeijão no parque) nunca iria fazer alguma coisa qualquer nota. Depois o Rodrigo emana respeito pela inteligência. Lê, estuda, fuça, escreve, arrisca, opina, se expõe. E ainda por cima, sabe transformar tudo isso num bom discurso. Fórmula perfeita. Apesar do Sesc, que cá pra nós acho que foi jogada de mestre em início de palestra, o nego mandou bem. O Paulinho ajudou e muito na prosa, e com eles tivemos sem dúvida a melhor exposição do dia, vencendo no meu ponto de vista a maestria Almapiana e suas Havaianas que viraram bolsa (genial).
Bom, pra terminar digo aqui ao amigo Leão que hoje comprei minha Melissa, engasgada ha um tempão por causa dos meus 40 anos - Rodrigo, conta pro Paulinho que ele vai entender... E que gosto de saber que tenho com ele um relacionamento um pouco maior do que ouvinte de palestras. Valeu Nica e Gigi por essa situação.
Vai então um beijo especial e votos sinceros de bons ventos pra esse moço comprido, e pra toda a turma da Casa Darwin.
Oratória na minha simples visão é isso. Chegar aonde se quer pelo respeito. Tirar risos das pessoas durante a conversa com elas, e assobios depois.
Ontem assisti o Rodrigo Leão num evento. Fui lá pra isso nesse dia. Sabia que vinha coisa boa porque do jeito que ele é chato e crítico (pensa que ele passa gel de limpeza na mão pra pegar a bisnaguinha com requeijão no parque) nunca iria fazer alguma coisa qualquer nota. Depois o Rodrigo emana respeito pela inteligência. Lê, estuda, fuça, escreve, arrisca, opina, se expõe. E ainda por cima, sabe transformar tudo isso num bom discurso. Fórmula perfeita. Apesar do Sesc, que cá pra nós acho que foi jogada de mestre em início de palestra, o nego mandou bem. O Paulinho ajudou e muito na prosa, e com eles tivemos sem dúvida a melhor exposição do dia, vencendo no meu ponto de vista a maestria Almapiana e suas Havaianas que viraram bolsa (genial).
Bom, pra terminar digo aqui ao amigo Leão que hoje comprei minha Melissa, engasgada ha um tempão por causa dos meus 40 anos - Rodrigo, conta pro Paulinho que ele vai entender... E que gosto de saber que tenho com ele um relacionamento um pouco maior do que ouvinte de palestras. Valeu Nica e Gigi por essa situação.
Vai então um beijo especial e votos sinceros de bons ventos pra esse moço comprido, e pra toda a turma da Casa Darwin.
22/10/2008
ai, ai
Se suspira aliviado a noite na cama, e é bom que só essa sensação de encher o pulmão de ar e soltar os bichos depois. A gente se vê mais leve. Suspiro também vem sem que exista ar, às vezes na falta dele de tanto que a gente fala, quando pára, tá no mesmo alívio. Também é um pouco de suspirar encostar a cabeça num ombro doce. Amigo, amante, querido, distante, não importa muito tudo isso, importa que dá um alívio gostoso. Suspiro de raiva ou de alegria abre os poros e limpa o dia. Tem também o suspiro que engasga, assusta e depois aos pouquinhos vai dando espaço pro alívio. Esse vale menos, mas vale ainda. De verdade o suspiro é uma reação, uma necessidade que você tem por enxergar-se tão bem, mas ainda não saber de que jeito tira todos os proveitos. Bom, um dia depois do outro.
20/10/2008
santa paciência
Ontem na missa eu pedi o que certamente mais me falta: paciência. Só quero isso agora. Paciência Senhor, paciência. Sempre fui intolerante com muitas coisas, só que antes, até pela idade, não ligava muito pras grosserias que fazia, ao contrário queria é mais. Adorava ver que havia atingido o que queria, mesmo que isso não resolvesse nada. Só que agora mais madura, eu quero mesmo são as soluções, as respostas afirmativas. Sofro por isso, e dessa maneira não adianta esbravejar, chutar a porta, o melhor é silenciar. Rir por dentro enquanto os outros te vêem chorando por fora. Juro que me exercito. Dia-a-dia eu percebo minhas escorregadas, e sei que isso já é um grande passo. Só que é duro porque não há ajuda, é você por você mesmo. Parece que há cócegas no mundo pra te provocar a perder o passo. Há de se ter um autocontrole budista. Ô Deus, tô longe ainda, tô longe, mas juro que vou até lá.
15/10/2008
luis, teu nome é gentileza
O Luis é o motorista aqui da garagem da eii!, ele manobra os carros e nos recebe todo dia pela manhã, ou tarde, ou noite, não importa. Tá sempre com um sorriso no rosto e atento. Antes de abrir a porta pra gente descer, assim que ele vê o carro apontar na rampa vai lá e chama o elevador, desse jeito quando você sair não precisa esperar pra ir pro seu andar. O Luis pergunta todos os dias se meus filhos, e o César estão bem, comenta que o carro precisa lavar e cuida disso pra gente. Informa se está trânsito, se é melhor esperar um pouco ainda pra ir embora. Fica contente quando vê que foi possível sair mais cedo e ir curtir em casa antes dos horários costumeiros. Reconforta a gente se, ao contrário, já tá bem tarde. Ele assimila os carros, as placas, se liga nos detalhes pra não perguntar o que já sabe a resposta. Facilita, não complica nunca. É pequenininho e fala sempre da sua esposa, uma baiana que deve cozinhar um bocado, mas fala somente se você der brecha. Como é bom saber a hora das coisas. Um dia o Luis foi embora, decidiu que iria ficar só com um outro trabalho de manobrista que tem à noite depois que sai daqui, e a gente, ou pelo menos eu, ficamos órfãos de gentileza. Ai que triste. Só que pra nossa sorte, há duas semanas o Luis voltou. Foram buscar ele. Me vi tão feliz na hora que olhei o Luis na garagem, e ele continuava igualzinho, parecia que nem tinha ficado ausente. E nem pensem num Luis humilde, coitado... o Luis é estiloso e firme. Só sei que tá ele aqui de novo, trouxeram ele de volta porque uma coisa é clara, o mundo tá carente de gentileza, e quem tem uma por perto, não deixa escapar. Então, segurem seus luises e permitam também que eles venham à tona. Certamente vai ser muito melhor assim.
Assinar:
Postagens (Atom)
eu sou
- Cice Galoro
- Gosto de boniteza, de arrumação, da moda dos anos 30. De margaridas e pérolas verdadeiras. Gosto da noite, de gente dando risada, do colorido de um prato de feijoada. Gosto de sair e de mudar, gosto de família, de amigos e com eles estar. Gosto de dança e de criança, e gosto muito, muito do mar.