12/03/14

pensaste

Bem sabes que não sabemos bem um do outro.
Sabemos isso, mas aquilo quem sabe?
Disfarças e de que adianta. O tempo já explicou que  saber assim, só o pensamento tem e ele é calado. Só fala às vezes e pelos olhos que traem, inquietos piscam, lacrimejam, criam-se rugas.
E sabendo disso, porque isso se sabe - todos sabem, nem adianta achar que pode sarar esse tal de não se sabe. Só porque andamos de mãos dadas desde o tempo que sei de mim e sabes de você? Se sabíamos de lá, era porque o pensamento sequer sabia de nós e vão, deixava sermos um do outro. Mas seguimos e desprendidos de viver estamos até hoje sem saber porquê. Cada um sabendo de si, ou nem sabendo de nada por amor. Amor. Esse sim sabe de tudo. Porque não pensa.

19/02/14

volta e meia

Girar em volta de um mesmo ponto central deve ser muito chato. Espirais não sabem ir em frente, vão dois passos e voltam pro seu caramujo de linhas. 

10/02/14

roda. Viva

Ela adorava ficar girando. Girava, virava, rodava, rodava...
Ficava tonta e isso era gostoso.
Não podia ver uma argola, um arco, um anel redondinho.

Ela girava, porque o mundo era muito parado.
Virando e olhando para o alto. As nuvens correm mais assim.
A grama sobe, sabia?

Currupio, roda-roda - mas esquece o peixe é.
Girava de noite, rodava de dia.
Que alegria.

Um dia desses, sem querer, o tio Rolando levou ela no parque.
Lá onde colhia algodão, parque não havia. Nem sabia.
Ela foi olhando o pneu do carro que girava muito mais rápido do que o da carroça.

Já tinha valido a saída se fosse só isso, mas qual não foi sua surpresa na hora que a lente do óculos redondo do tio Rolando refletiu aquela roda gigante.

Ela gritou seu nome sem saber que era mesmo esse. Gritou porque nunca tinha visto uma roda tão gigante, não porque sabia qualquer coisa a respeito.

Pulou do carro pela janela quadrada.

Caiu na estrada de terra virando e virando, ralando a perna, batendo o joelho.
Poeira subia e ela olhava pra cima, igual o dia que virou tanto a Tereza que ela voou longe.

Rolando - não o tio, que berrava pra ela não se jogar e depois perdeu de vista a garota - ela foi e foi e ai, e dói e tum, e rola e rola... até os pés da gigante. Mesmo com sangue e cabelo engrunhado, vestido rasgado, ela olhou pro alto e emocionou quem estava na fila.

Subiu, tinha outro jeito de girar naquela roda. Era uma virada dentro da outra.

Assim que a roda foi pro alto ela começou a virar a sua caixinha, forte, forte, mais forte.

E lá no alto, com vento no rosto, girando pra cima, virando pra baixo, pra um lado, para o outro, descabelada e de qualquer jeito....

ela foi a pessoa mais feliz do mundo.  

15/01/14

santo dai-me

Gente que mete a mão na cumbuca do outro me causa náusea. Não consigo praticar o amor nesses casos. Queria entender qual é o prazer de usufruir de algo que não é seu, de não fazer nada para contribuir, de não repartir e pior, de achar isso tudo normal. Não consigo fazer entrar na minha cabeça de estopim curto, que além de aceitar tal situação, ainda precise fingir que não percebo. Não gosto de vítimas, nem no jogo de detetive aceito ser. Divido claramente o que é ajuda, o que é boa vontade do que é corpo mole, oportunismo e caráter posto a prova. Quer saber que lado joga a boa pinta de que falo? Tenho o segredo: Dê ou tire algo. Veja a reação, a ostentação, a ofensa gratuita, o apontar de dedos como se fosse obrigação, o subir no banco do engraxate com uma bravata. Nem precisa vasculhar, apenas passe os olhos no tal histórico de vida, seus empregos, suas escolhas, suas frases de 10 anos ou de agora. Se o que for diferente nem fizer curva, ficar de ângulo reto, aquele dos dedos em L, escape - a menos que tenha comido fritura e precise vomitar. Esse tipo não muda, nada faz ser melhor e nem pior. Eu pratico meditação nos andes e no inverno, cada vez que preciso conviver com isso, e não é lá muito raramente não. Santo, preciso de muitas latrinas abertas. Dai-me.

drama

Todo humor tem uma certa tragédia, ou melhor seria dizer que na tragédia há um pouco de humor. Meus ídolos, que ainda são os mesmos, e cada dia que assumo mais minha insignificância, crescem - todos eles, os velhos e os novos, carregaram fardos pesados, foram achocalhados em casa ou nas janelas do mundo. Deixaram suas vidas entre linhas, telas ou músicas e nós vasculhamos e olhamos e colocamos o dedo e viramos a página e ousamos dar opiniões, sem ao menos conhecer o capacho de suas portas de entrada e ainda assim nos sentimos íntimos. Invasão perdoada, concluo como a sofreguidão é rica. Como o desespero produz boa leva. Como o descaso casa o gênio. Eu descobri porquê. O dom é a única forma de expressão do oprimido. Se há opressão e dom, há um grande repertório pela frente, mas se só há opressão ou dom, não há quase nada. Talvez aqui um sinal do que poderia ser, ali um outro... Temer a dor é medíocre, não aceitá-la é norma e saber expressá-la, seja ironicamente ou fatalmente, é arte.

13/01/14

nó cego

Como é, me diz...que alguém chega onde chegou e depois volta de ré. Vai descendo e caindo pra lá de onde esteve. Lembro uma vez de furar fila da balsa pra Ilha e lá na boca ter polícia. De esperta, voltei 10 casas, comecei o jogo de novo, perdi tempo e prazer na praia e fiquei com a lição. O que não entendo mesmo, é porque o cidadão não se encontra, recomeçar faz parte, todos somos, mas desconstruir é karma pesado de quem ainda não entendeu o sentido da estrada. É que é assim, tudo está na mente, é nela que se resolve. Nem lá nem cá, e por isso fica tão difícil. O maior inimigo dos passos em frente são os paradigmas que desenhamos em rascunho pela nossa vida e lá ficam, intitulados como obra de arte. Bosta. Arte é dobrar os joelhos, deixar de fazer pouco, olhar de lado e perceber que não tem a ver com dinheiro, amizades e desejos, tem a ver com a escolha que você fez num lugar que nem sabe onde é, mas é. Lá no fundo do inconsciente. Só que de tão misterioso, mistério não há. Porque é um despertar mais cedo propondo café no bule, uma casa limpa, varrida nos cantos, um sim por dia, sorrisos e muita força pra largar pra trás, mesmo e tanto, o reclamar, a auto piedade ou a pompa e circunstância, que são gêmeas (não a pompa e a circunstância, essa e a auto piedade) porque quem ronca muito esnobando, pode ver que chora igual do outro lado, chateando os vizinhos e vice e versa. Então eu rogo, imploro, peço: Maria intercede. Só tua mão pra desfazer tamanho nó cego.

18/12/13

desejo (s) aos poucos para 2014

Fico todo final de ano desejando, emanando pra minha mente o que espero realizar. Tem dado certo. Olhando anos atrás, dificilmente algo viável eu não tenha realizado. Fica sempre de fora, ganhar na mega sena, comprar uma cobertura no Upper East Side com vista para o Central Park e fazer todas as viagens de primeira classe, mas tudo bem, não desisto. Agora esse ano, quero pedir diferente, aos poucos, conforme for sentindo as verdadeiras necessidades ou apenas singelas vontades. Começo com uma importantíssima.

Quero ser mais tolerante.

Não espero de mim mesma um doce de coco, mas verdadeiramente espero entender melhor o tempo do outro, mesmo que seja de uma morosidade 'ranca cabelos'. Não quero estragar minha cútis com a ira de limites alheios. Quero paz no meu coração quando falar com banco, telefonia, atendentes de qualquer espécie, ou ainda e mais, presidentes de empresas, donos de sobrenomes cheios de erres e esses, gentes, de fora ou mesmo de casa. Tolerância pra aguentar o ano da Copa, o ano das eleições, o ano de final 14.

Tenho pra mim que será um ano bem bom e desafiador. A contar desse meu primeiro desejo.

eu sou

Minha foto
Gosto de boniteza, de arrumação, da moda dos anos 30. De margaridas e pérolas verdadeiras. Gosto da noite, de gente dando risada, do sabor colorido de um prato de feijoada. Gosto de sair e de mudar, gosto de família, de amigos e com eles estar. Gosto de dança e de criança, e gosto muito, muito do mar.